quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Ínfinus Parte 4


Mais uma parte deste intrigante conto!

Boa leitura.

Ínfinus

Parte 4


Merda.

Cocô.

Excremento.

Fezes.

Bosta.

Era assim que me sentia quando entrava em estado de morte, ou “quase morte”.

Uma agonia que me tomava todos os sentidos, talvez uma sensação parecida com a de um claustrofóbico preso vivo em um caixão, este que estaria enterrado a sete palmos.

Era uma dor estritamente mental.

Nunca sei quanto tempo passo nesse estado, mas logo depois, meu corpo entra em uma espécie de coma.

É o segundo estágio.

Nesse momento, já sinto a ligação do cérebro com o corpo, e a agonia diminui substancialmente.

Nesse estágio já tenho uma maior noção das coisas, mesmo que essa noção seja ainda muito vaga. Na verdade, nesta fase costumo sonhar...

Bem... Às vezes os sonhos são atormentadores, às vezes são como flashbacks.

Ultimamente tenho refeito minha morte no mundo dos pesadelos, digo, não minha morte, mas o “meu despertar para a imortalidade”.

Aconteceu há quase um ano atrás... Na época era um garoto como qualquer outro...

...


-O que tu tá dizendo?! Nunca! O Deadpool é mais fodão que o Wolverine!

-Só tou dizendo que a diferença ente eles dois é insignificante. São quase o mesmo personagem... Pra mim faltou criatividade.

Eu e Eduardo estávamos em uma típica discussão de fim de aula. Caminhávamos já saindo da escola, em direção a parada de ônibus. Estudamos juntos desde o primeiro ano do ensino médio, morávamos no mesmo lado da cidade, então sempre tivemos uma amizade forte.

Era começo de ano, estávamos pouco preocupados com os nossos deveres estudantis, apenas seguíamos um dia após o outro, e ainda havia dúvidas para qual curso fazer vestibular. Enfim, coisas totalmente comuns para pessoas de nossa idade.

Continuamos andando, enquanto eu tentava ridicularizar o argumento de meu amigo, com palavras fortes e xingamentos, percebi ele parar subitamente. Eduardo sempre foi um cara meio medroso, precavido, sempre fazia questão de olhar pros dois lados antes de atravessar a rua... Ao contrário de mim.

Lembro de ouvir o freio, os pneus rasgarem o asfalto com um grito agudo e logo depois sentir o impacto.

Em seguida ver rapidamente tudo rodar: céu, chão, céu, chão, céu e o chão. Exatamente nessa ordem, num curto espaço de tempo de uns 3 segundos.

Minha cabeça se esbagaçou no concreto.

Pronto.

Foi a primeira vez que “morri”.

A primeira vez que a sensação de morte me tomou por inteiro.

Passei pelos dois estágios já mencionados, e então, cheguei ao terceiro:

Abri os olhos e senti a dor mais filha da puta de toda minha vida!

Lembro que a dor era tão grotesca, que meu cérebro entrou em estado de choque, tive um ataque epilético. Fiquei babando e me contorcendo como um cachorro com raiva querendo coçar as costas.

Os médicos já haviam dado a notícia à minha mãe que eu estava morto, mas subitamente eu havia acordado e tava tendo um “piripaque”.

Nenhum deles soube explicar, só podia ser um milagre! Fiquei morto por quase 18 horas, e subitamente havia ressuscitado.

Uma semana depois, eu já estava totalmente curado. Por “sorte”, minha família sempre foi pobre, e em um hospital público, eles não fizeram nenhuma questão de analisar à risca meu corpo, ou o que havia em meu sangue. E eu queria sair o mais rápido possível daquele inferno.

No dia que tive alta, conheci o homem que me atropelou.

O senhor Musagi, um japonês de quarenta e tantos anos, com cabelo só nas laterais. Quando ele me viu, abraçou-me forte, enquanto agradecia a Deus.

Não sentia nenhuma raiva dele, pelo contrário, sabia que a culpa foi toda minha.

Uns dois dias depois eu fui até a casa dele, disse que tinha um presente pra me dar.

Cheguei a sua casa, e só então percebi que era um homem rico. Casa grande, confortável... Morava só.

Então, de uma forma bem formal ele me deu uma wakizashi, famosa espada curta, usada pelos samurais.

Achei muito massa, sempre quis ter uma espada!

Em seguida pediu que eu me sentasse que ele iria contar uma historia.

Contou sobre um homem de sua família, que assim como eu, havia sofrido um acidente e por algumas horas foi dado como morto. Mas assim como eu, também conseguiu voltar à vida. E depois daquele dia, o homem teve uma saúde de ferro, e quando se machucava, facilmente cicatrizava... Seu porte físico se desenvolveu mais do que o normal, era como se tivesse descoberto a fonte da juventude!

Mas um dia algo muito estranho aconteceu.

Ele foi dado como desaparecido, houve buscas, dois dias se passaram.

Seu corpo foi encontrado sem sua cabeça. Ninguém nunca soube o que aconteceu.

Ele pensou um instante me encarando. Suas palavras em seguida foram:

-Sei que é um garoto esperto. Gosto de você. Mas a única coisa que posso fazer por hora, é dizer para tomar cuidado e manter a espada sempre bem afiada.


-Ínfinus! Acorda pelo amor de Deus! Não me deixa só!

A voz de Eduardo se misturou por um instante com o sonho, mas logo consegui despertar, me sentia exausto, quase não tinha forças nem pra falar:

-Estou aqui...

-O que ela fez contigo?!

-Ela bebeu... Meu sangue...

-O quê?! Como...?

-Ela é uma vampira...

-Vampira?! Isso não exis--

Eduardo não conseguiu terminar a frase, até pouco tempo, ele não acreditava em seres imortais, muito menos em fantasmas... Mas agora, por que não acreditar em vampiros?

-Cara... Eu não entendo... Por que nos prender?!

-Será que tem algo haver com o primeiro?!

A expressão de Eduardo foi de horror quando ouviu minhas palavras, e até gaguejou com algumas lembranças invadindo sua cabeça:

-O... Pri-primeiro...

E a única coisa que eu consegui dizer enquanto refletia sobre o assunto, foi:

-Cara, tamo fudido.

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