"Éguas! Hassã postando algo novo no blog?!"
Pois é senhores, consegui arrumar um pouco de criatividade nula pra escrever mais um conto.
O de sempre: um conto escrito em primeira pessoa, onde o protagonista/narrador fala um pouco de seus problemas pessoais.
Obrigado, e divirtam-se.
Por: Hassã Viana
Descoberta de um homem só.
Nunca pensei que olhar o fim de tarde pela janela do meu apartamento pudesse me trazer relativa paz. Não é uma paz comum... Mas sim, uma paz triste.
Tem algo me incomodando.
Não sei o que é.
Talvez a cor das paredes da sala. Esse “amarelo creme” nunca me agradou.
Quem sabe o som alto do vizinho...? Não, impossível! É AC/DC. Rock de qualidade.
O cheiro de carne queimando... Claro que não. Todo dia a Dona Lurdes come comida bem passada, e eu nunca me incomodei em todos esses nove meses que estou aqui.
Todos esse nove meses?!
Não me dava conta que fazia tanto tempo assim... Então é isso que me incomoda?
Lembro do primeiro dia que cheguei aqui com a Clara, ela estava muito empolgada, um sorriso feliz. Era a realização de um sonho encontrar um lugar só pra nós dois. Pera... Fui eu quem foi comprar a tinta pra pintar a sala, fui eu quem escolheu o amarelo creme.
Então que sensação estranha é essa? Esse vazio chato.
Será que é fome...? Acabei de jantar!
Mas comi pouco, a comida tava gostosa demais... Estou acostumado à alimentação ruim que a Clara me proporcionava. Mas as sobremesas eram ótimas...
Hoje tô de folga, passei o dia inteiro dormindo, e só pegarei serviço amanhã pela manhã, devia estar totalmente tranquilo... Mas o que é essa sensação que me agonia? Que me deixa inquieto.
Por que acho que tem algo errado?
Será que tô me esquecendo de algo?
As chaves tão no bolso, o celular em cima da mesa, minha carteira ali perto da TV... Não preciso alimentar o Tevez, a Clara levou ele.
Ela parecia gostar mais daquele cachorro do que de mim, devia ter dado outro presente pra ela... Aquele sacana vive mijando em cima das minhas chinelas, sem falar que gasto mais dinheiro comprando coisas pra ele do que pra mim.
Mas lembro que valeu a pena, porque o sorriso que a Clara deu quando viu aquele filhotinho feio... Acho que só vi ela sorrir assim, nos nossos primeiros meses de namoro.
Pra ela, cuidar daquele cachorro chato, eu acho, era algo como se preparar pra ter um filho...
Uma hora dessas ela estaria assistindo aquele programa chato sobre animais, no sofá da sala enquanto comia pipoca queimada e muita manteiga... E ele correndo pra lá e pra cá na casa, feito um otário. Talvez seja isso que esteja me incomodando:
O silêncio.
Sem aqueles dois aqui, a casa fica vazia.
Caminho até o quarto, a sensação ruim me acompanha... Ela está começando a me incomodar de verdade, será que estou com febre? Lembro que tinha que passar meia-hora adulando a Clara pra ela poder tomar o remédio quando ficava doente. Ôh mulher teimosa! Mas foi graças a sua teimosia que eu consegui ser promovido... Se não fosse ela insistir para eu mostrar meu projeto para o chefe, ele nunca teria me notado na empresa, e sem isso eu continuaria sendo um estagiário ridículo.
Engraçado... Acho que ela é a garota cheia de defeitos mais perfeita que já conheci.
Por que foi mesmo que terminamos?
Ela disse que tinha me afastado dela. Que havia me tornado indiferente demais.
Gritou e esperneou.
Fiquei calado, nunca tinha visto ela tão alterada.
Pegou o cachorro e foi pra casa da mãe.
Faz uma semana desde então, nem tive muito tempo pra pensar nisso. O trabalho me atarefou, acho que hoje é a primeira vez que penso nisso mais de cinco minutos. Engraçado, como quase não senti falta dela neste meio tempo.
Talvez esteja mesmo me distanciando. Talvez não a ame mais.
Talvez a chama do nosso amor tenha se apagado. “Acontece nas melhores famílias”.
Tivemos ótimos momentos... mas acabou.
Hora dela seguir a vida dela e eu a minha.
De repente o telefone toca.
Lembro que ela era a única atender os telefonemas... Era “a secretária da casa”, como nossos amigos costumavam dizer. Sempre mudava a entonação da voz pra dizer o “alô”... E costumava ficar enrolando o cabo do telefone no dedo, enquanto conversava.
O telefone continua tocando, não quero atender.
O cabelo lhe cobria o rosto e ela ficava assoprando-o, entretendo-se com o esvoaçar das mechas.
Às vezes o Tevez aparecia se jogava no chão e oferecia a barriga para ser coçada. Clara como uma boa mãe mimando o filho, usava o pé pra acariciar o filhote... O desgraçado ficava todo dengoso!
Não acredito...
Estou com ciúmes de um cachorro?!
Então é isso?! Está sensação que me incomoda é Ciúmes?! E de um cachorro?
Se sinto ciúmes, então significa que ainda a amo? Ou que eu sou só um egoísta malévolo?
- Merda!
A porra desse telefone não para.
Queria que a Clara estivesse aqui, ela atenderia o telefone, ela é a secretária da minha casa. Da nossa casa.
Sem ela...
Eu fico assim.
Vazio.
Pra ter ela agora aqui, até aceitaria o cachorro mijão.
Mesmo que fosse pra continuar brigando comigo. Adoro quando levanta uma das sobrancelhas pra apontar o dedo, faz um certo charminho... Acho que nem ela percebe isso.
Mas acho que a perdi. Deve ser por isso, essa sensação.
É a perda.
A ausência.
O que foi que eu fiz?! Por que a deixei ir? Por que eu não a impedi! Por que não disse que amava demais?!
Droga.
Telefone de merda. Para de tocar!
Faz uma semana que não converso com ela!
Uma semana inteira... Acho que já faz mais de dois anos que não passamos tanto tempo longe assim. Não importa, vou ligar pra ela, me desculpar!
Droga, droga, droga, droga, droga, droga, droga.
Deve ser ela ligando agora!
Corro em direção ao telefone.
Vou dizer que estou arrependido, que ela é tudo pra mim! Que sou a merda de um idiota!
Por favor, não pare de tocar!
Ela tem que saber que esta distância me faz mal! Que eu necessito dos seus gestos, sua voz, sua presença! Ela ainda tem que saber que eu...
QUE EU A AMO!
Atendo o telefone, minha mão treme, antes que ela diga qualquer palavra, eu me desculpo:
- Clara, por favor, me desculpe... Eu não sabia o que estava fazendo, por favor, volte pra casa! Não consigo ficar longe de ti! Estou prestes a ficar louco! Clara... Eu te amo! Nunca tive tanta certeza disso.
Notei um súbito silêncio do outro lado da linha, só uma respiração se mantinha.
- Por favor... Diga algo.
Insisti. Meu coração acelerado ansiava por uma resposta!
-Ah... Aí não é da pizzaria MaxChicken?
Droga. Era Engano.