terça-feira, 29 de novembro de 2011

Conto Erótico?

Um conto longo, enfim!

Pois é, hoje trago um conto de verdade. Cansei de enrolar vocês com aqueles mini-textos e decidi fazer algo mais "cheio".

É só, espero que gostem. E não esqueçam de comentar.

Boa leitura.




-É um conto erótico, professora.

Tinha dezesseis anos e havia decidido ser escritor.

E como tal pedi sugestões a minha professora de português para auxiliar-me no começo da minha jornada literária. Ela, como uma ótima professora que sempre foi, se encantou com a idéia e logo sugeriu que eu escrevesse um texto de cada classificação na ordem que me conviesse. Quem sabe assim eu me encontrava.

Achei a idéia interessante e então comecei.

E logo, em alguns meses eu já havia escrito: um horror, uma comédia, uma fábula, uma crônica e agora um conto erótico.

Admito que fiquei com receio de ter que escrever algo do tipo e depois ainda ter que mostrar para minha professora... Mas como um bom escritor que eu viria a ser, tinha de ser profissional desde agora.

Agora vou falar dela, a minha professora do segundo ano do ensino médio: Alice.

Não tinha mais que trinta anos, usando aqueles pequenos óculos de leitura e um cabelo em forma de concha que mal tocavam os ombros, se vestia de forma simples e discreta como manda o formalismo escolar.

Às vezes costumava me encarar por cima dos óculos, o que sempre me deixava sem jeito.

Professora querida por todas e de fácil convivência. Adquirimos intimidade quando ela pediu para a turma uma redação com tema livre, então eu fiz um texto de como seria escrever uma redação. Ela pareceu ter gostado muito, e daí em diante começamos a conversar mais, a principio só sobre literatura e temas ligados à didática.

Até certo dia, em que a encontrei num bar, desses meio chiques, tinha ido com uns amigos, a verdade é que nem queria ir... Nunca fui de sair, ou seja, era nerdão mesmo.

Ela se mostrou tão amigável quanto na escola, estava ela e mais uma amiga a quem educadamente me apresentou, e perguntou se não queria me juntar a elas. Lógico que aceitei. Preferia estar ali e ter provavelmente uma conversa decente com conteúdo do que ficar zanzando pelo salão em busca de garotas que nunca iria conseguir conquistar.

E parecia que eu estava realmente certo, na mesa não mais conversas politicamente corretas de aluno e professora, mas sim, palavrões soltos sem desconforto, assuntos gerados pelo calor do momento, pelo gosto da bebida.

E então a partir desse momento, mesmo na escola ela mantinha uma conversa mais aberta comigo, claro que sempre levando em consideração o momento.

E foi em uma dessas conversas mais reservada que mostrei meu conto mais recente, meu primeiro texto com conteúdo adulto.

-É um conto erótico, professora.

Ela soltou um sorriso simples, desses em que os lábios só se movem uns dois centímetros, e me lançou um olhar que não consegui traduzir na hora.

-Como assim, um conto erótico? – ainda sorrindo, como se aquilo fosse uma piada.

-Sim. Exatamente isso.

-Que loucura é essa, menino?

-Me veio à mente, eu escrevi. É um gênero como qualquer outro.

-Vai querer ser levado a sério escrevendo contos eróticos?

-Por que não? Na literatura o erotismo é tão trivial quanto qualquer outra forma de expressão.

-Sim, mas normalmente ele vem apenas como um elemento, não como o gênero predominante.

-A senhora mesmo disse que não importa o gênero, se algo é bem escrito provavelmente agradará a maioria.

-Se isso for uma brincadeira sabe as conseqüências que terá, certo? –ela disse com um certo tom de ameaça.

-Sim.

-Garoto você tem cada uma! –de repente ela deu outro sorriso se dando por vencida.

No mesmo dia, próximo à meia-noite, eu estava no meu quarto quando o celular tocou, deitado na cama, tentava revisar o conteúdo da prova, era fim de ano letivo. Então apenas peguei o celular e coloquei no ouvido:

-Oi?

-Oi, já estava dormindo?

-Não, pode falar.

-Que bom então, fiquei com medo de perturbar.

Só agora havia reconhecido a voz, era Alice.

-Tudo bem, ainda tou bem acordado.

-Você já havia me dito que dormia tarde por isso criei coragem pra ligar.

-Pois é, durmo um pouco tarde mesmo... Tá tudo bem? Aconteceu algo?

-Não, não... Tô ligando pra avisar que li o conto.

-Sério? Que achou?

-Bem... Não sei por onde começar... Mas o texto está muito bom. O melhor que já fez até agora.

-Mesmo?

-Sim. A narrativa é ótima, os elementos vão se encaixando de uma forma bem legal e quase intuitiva, as ações são muito humanas... E as descrições, uau! Como conseguiu pensar nisso tudo?

-Ah... Usei as imagens que vinham à mente... Só isso.

Ela me fez essas mesmas perguntas quando leu os outros textos, mas normalmente fazia em sala de aula, estava surpreso por ela ter me ligado, ela também nunca tinha me elogiado assim.

-E a inspiração, surgiu como?

-Bem... De fantasias minhas. –senti-me um pouco envergonhado ao dizer.

-Você já fantasiou isso tudo? Mas você só tem dezesseis...!

-É... –estava meio sem jeito.

-Tem coisas aqui, que eu só fui aprender depois de velha! Por exemplo, como você sabia o que era “períneo”?

-Sei lá... Só sabia.

-Esse texto mudou totalmente minha visão de você.

-Sério? Sou tipo um pervertido agora?

Ela riu um pouco antes de responder:

-Não, não... Te imaginava mais...

-Mais...?

-Bem... Não achei que conhecesse isso tudo.

-Como assim?

-Pelo seu jeito... O modo que é na escola...

-Ainda não entendi.

-Vamos deixar isso pra lá?

-Ah... Tudo bem.

-Ainda não consigo acreditar que foi você quem escreveu isso.

-Por que não?

-Bem... Como eu já disse, você só tem dezesseis, e trata os detalhes como se tivesse vivenciado cada momento. Até botei um trecho num site de busca na internet... Pra ver se não tinha copiado. Mas não encontrei nada... Só que eu já desconfiava que não fosse encontrar, dá pra ver que o texto ainda contém uns erros gramaticais e umas coisinhas a mais que são características só suas.

-Ah. Desconfiou de mim? Que feio.

-Fui boba.

Houve um pequeno silêncio, eu ainda tava assimilando a situação.

-Ainda pouco quis dizer que sou inexperiente?

-Como assim?

-Com sexo.

-Ah... Bem... –ela ficou sem jeito, procurando palavras que não pudessem machucar.

-Tudo bem professora. Eu entendi, não precisa ficar sem jeito... Mesmo porque é verdade.

-Mesmo?

-Sim.

-Isso não faz muito sentido pra mim. Como tem todo esse conhecimento de sensações e emoções?

-Eu leio bastante. Mas o principal, eu imagino bastante.

-Como assim?

-Bem... –fiquei sem jeito novamente pra responder.

Às vezes, eu me pego imaginando cenas do tipo, só que faço questão de imaginar detalhe por detalhe, desde roupas, cenários e situações.

-O contexto é muito importante nesse gênero porque é como se ele fosse preparando o leitor aos poucos, e quando as cenas mais pesadas surgem, ele já está tão totalmente envolvido que se deixa levar e nem percebe o quão sem pudor pode ser a situação descrita. E você faz isso com perfeição.

-Mesmo? Ainda achei o final meio fraco.

-É bom. É um pouco repentino, mas termina com uma frase interessante que conclui o texto de forma a se ficar imaginando... Você tem o dom da safadeza.

Nós dois rimos, e logo em seguida houve um pouco de silêncio. Uma pergunta latejou em minha mente e escorregou pela minha boca:

-Acha isso estranho? Me vê como um adolescente com os hormônios à flor da pele?

-Não, longe disso...

Houve um segundo silêncio, dessa vez constrangedor. Subitamente ela comentou:

-Quero fazer uma próxima pergunta... Mas não sei se devo.

-Faça. Sabe que não julgo.

-Tem razão, me sinto até bem à vontade com você.

-É, eu também, nunca teria mostrado o texto e dito essas coisas se fosse a outra pessoa.

-De verdade?

-Sim.

-Gosto disso. Sua honestidade. Então vou fazer a pergunta. -ela disse essa última frase como se ainda buscasse coragem.

-Tá.

-Você já imaginou alguma cena comigo?

-Sim. -A resposta foi instantânea, ela continuou:

-Ainda lembra?

-Sim.

-Pode me contar?

-Na verdade, eu até escrevi.

-Mesmo?

-Sim.

-Quero que você leia para mim, pode ser?

-De verdade...? Não acho minha voz boa.

-Por favor... – o pedido saiu tão suave, que não tive como retrucar.

-Vou buscar.

-Eu espero.

Guardei o que ainda estava sobre a cama, abri uma gaveta e peguei meu caderno de anotações, sentei-me no chão, fazendo a cama de encosto para as costas, coloquei o caderno no colo, pus o telefone de volta e disse:

-Pronto. Posso começar?

-Sim... -A resposta veio logo depois do barulho do degustar de um gole em alguma bebida. Apenas ignorei, respirei fundo e comecei a ler.

Enquanto lia, a cena se desenhava na minha mente nos mínimos detalhes, era quase real para mim.

No silêncio do telefone ouvi a respiração dela ficando um pouco mais acelerada. Durante a leitura ela não disse uma única palavra, mas tinha certeza que Alice estava a ouvir tudo com muita atenção.

Até quando terminei:

-E esse é o fim.

Com uma voz meio fraca, respirando sem ritmo ela pediu:

-Repete a última parte, por favor.

Então, antes que eu terminasse pela segunda vez, ouvi um gemido sufocado em tom crescente, tímido e discreto do outro lado da linha. Agora a respiração forte era muito mais evidente.

Terminei de ler e fiquei em silencio por alguns instantes.

-Gostou?

Ouve mais alguns segundos de respiração forte e em seguida ela desligou.

Sem dizer mais nenhuma palavra.

Fiquei confuso e fui dormir.

No outro dia na escola, tudo acontecia normalmente.

Antes da prova convidei a Carol, a garota a qual eu tinha uma paixão platônica, para dar uma volta por aí, era a última semana de aula, eu tinha que tomar alguma atitude:

-E aí? Vamo lá na praça do coreto depois da prova?

-Quem mais vai?

-Bem... Posso convidar o pessoal...

Ela me olhou com um sorriso e disse:

-Melhor não.

Aquela resposta preencheu o meu peito com um calor, que foi impossível segurar minha felicidade, um sorrisão se alargou no meu rosto.

Fui fazer a prova tão feliz, que mal consegui pensar nas respostas. Era prova de química, não veria a professora Alice até a sexta, quando teria a última prova de português... Eu nem era obrigado a fazer porque já havia alcançado a nota.

Quando terminei a prova saí da sala e não vi mais a Carol, ela tinha terminado primeiro que eu. Peguei o celular pra ligar pra ela foi quando vi a mensagem que não tinha notado antes por estar no silencioso:

“Tô merendando no refeitório. Quando terminar, passa aqui!”

Então me dirigi até o refeitório, os corredores estavam vazios e silenciosos. Em época de prova era sempre assim. Antes que eu pudesse chegar lá, encontrei a Alice:

-Já vai professora?

-Sim... Hoje não aplico prova.

-Que bom então, um tempinho pra descansar.

-Estou merecendo mesmo. E você? Vai pra casa também?

-Sim...

-Eu tava pensando, tenho uns livros em casa e acho que eles poderiam te ajudar... Quer ir comigo buscá-los, lá em casa?

-Sério, mesmo?

-Sim, até faço um lanche pra gente, e olha que como moro só, até aprendi a fazer umas coisas legais.

-Poxa... Ia ser demais!

Subitamente, o sorriso de Carol veio a minha mente. Eu tinha uma escolha a fazer:

Sair com a garota que foi minha paixonite o ano todo?

Ou sair com a professora que está se dando de bandeja?

Procurei analisar tudo, várias opções correram a minha mente em frações de milésimo de segundos.

Eu tomei a decisão.

-Bem professora... Não vai dar. Meu pai tá me esperando... Sabe como é...

-Tudo bem. Fica pra próxima.

-Sim, sim! Com certeza! Promete que não vai desistir da idéia?

Ela riu, e confirmou, nos despedimos e fui embora.

Saí com a Carol, e acabamos ficando. Foi muito bom.

E o melhor é que ela quis de novo, até marcamos pro dia da prova da Alice, já que nós dois estávamos passados não precisávamos fazer.

E então aquela foi a última vez em que vi minha professora de português.

No ano seguinte ela não dava mais aulas, ouvi dizer que havia se mudado.

Às vezes me pergunto se fiz a escolha certa.

Será que fiz?




segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Atrasado

Meu professor perguntou com cara feia porque eu cheguei tarde na aula.
Deu vontade de responder:
-Porque ontem o senhor passou uma atividade pra hoje, passei a madrugada fazendo. Fui dormir tarde, acordei tarde, tomei banho tarde, tomei café tarde, fui pro trabalho tarde e tive que sair tarde pra compensar. Peguei onibus tarde pra vir pra cá, e então, cheguei na sua aula tarde.
Mas achei que era dramatismo demais, então só disse:
-Porque eu tava afim.






[Mais uma daquelas postagens pra não deixar o blog parado.]

sábado, 8 de outubro de 2011

Ah... O amor...


Uma vez eu me apaixonei por uma garota.
Passei dois anos tentando dizer que gostava dela.
E quando finalmente consegui  pedir um beijo,
ela fez cara de nojo.

Ah... O amor...


quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Feliz Para Sempre

Feliz Para Sempre
 
Era uma vez eu.
Um dia acordei e não sai da cama.
Não olhei pro relógio.
E Fui feliz para sempre.

Fim

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A cura

Não, eu não desisti do blog (ainda).



Nem vou falar muito porque não tenho descu
lpas aceitáveis.

Digo, então, que trago um novo conto, recém saído do forno.

Algo bem mórbido, do jeitinho que gosto.

Aconselho que ao ler, deve se ouvir uma trilha sonora bem "fossa" mesmo, ou algo que transmita uma sensação bem vaga. Isso vai multi
plicar o poder do texto em todos os seus sentidos.



E não se preocupem, pois como diria o exterminador do futuro:

I will be back.










A Cura



Uma moça em pé a beirada de uma ponte.

Com o olhar profundo para quase trinta metros de queda livre à sua frente.

A madrugada está fria, o vento está forte... É perigoso permanecer ali.



-Ei moça... -Um jovem que caminhava por ali. Ela ignora.



-Ei moça. -Ele tentou de novo. Ela continuou em silêncio.



-Ei moça. -O rapaz insistiu... Mas não obteve resposta.



-Ei moça. -A voz dele era calma. A mulher de costas, fingia não ouvi-lo.



-Moça?

-Deixe-me em paz!

-Por quê?

-Por que o quê?

-Por que quer que te deixe em paz?

-Por quê?!

-É. Por quê?

-Não percebes o que vou fazer?

-Acho que sim.

-Então vá embora. Me deixe só.

-Mas esse aí é meu lugar.

-O quê?

-Esse é meu lugar. Tá vendo o lenço enrolado no ferro ali? Meu lenço, logo, meu lugar.

Ela observou o lenço azulado com o desenho de uma flor, inconscientemente tinha parado ali por causa dele... Ficou confusa.

-Esse lenço pode ser de qualquer um.

-Bem... Talvez eu seja qualquer um.

-Pois pegue-o e vá embora.

-Não.

-Por que não?! -Ela estava quase furiosa. O rapaz permanecia inalterável:

-Você está no meu lugar.

-E daí?! O que quer que eu faça?!

-Não ouve o que eu digo? Vou ficar na direção do vento pra ver se nossa comunicação melhora.

O rapaz mudou de posição e repetiu:

-Você está no meu lugar. Ouviu melhor agora?

-Mas que diabos...!

A mulher parecia terrivelmente irritada, mas se conteve, então cuidadosamente, sobre o peitoril da ponte ela caminhou um pouco para o lado e disse:

-Assim está bom?

O jovem sorriu levemente e agradeceu sem parecer se importar como a moça se comportava ou o que ela estava prestes a fazer:

-Muito obrigado.

Então ele subiu no peitoril da ponte.

A moça se assustou e perguntou:

-O que você está fazendo?!

-O mesmo que você, eu suponho.

Então subitamente ela ficou calada.



O vento soprou mais forte.

E o silêncio se tornou um peso.



-Quanto tempo levará depois que estiver lá embaixo?

-Depende muito... Existem pessoas que conseguem aguentar bastante tempo.

-Será doloroso?

-Sentir seus pulmões se encherem de água...? Dizem que é como se eles queimassem.

Ela hesitou por um instante. Ele notou:

-Mas o que é esse mero detalhe em nossas vidas? O que é a dor? Imagino que já nos é comum.

As sobrancelhas da moça se comprimiram em desconfiança. Ele continuou:

-Claro que se chegamos a este ponto, já perdemos tudo aquilo que nos tinha valor. Então a respiração só vai ser mais uma coisa que nos levarão... Assim como a vida.

-Quem é você? A minha consciência?

Ela soltou a frase sem pensar, ele não respondeu, só continuou com aquela sua cara amigável e aquele sorriso vago no rosto de quem timidamente se delicia com um momento.



Então ela resolveu finalmente prestar atenção nele, nos detalhes de sua fisionomia:

Cabelos e olhos negros, bem eram negros na escuridão da noite. Tinha porte físico mediano, sem traços muito marcantes... Podia ser qualquer um. Porém seu rosto era bonito de tal modo que ao olhar em sua direção as coisas pareciam se tornarem mais fáceis, já que ele trazia certa paz.

Talvez fosse pelo sorriso.



-Quer que eu pule primeiro?

Ela engoliu em seco.

Como ele podia estar tão calmo?

Ela refletiu alguns segundos, teve certo receio de perguntar, mas devida toda a situação conseguiu criar coragem para tal pergunta:

-Por que...? Por que está aqui?



Foi como se a pergunta acertasse em cheio aquele sorriso e o partisse ao meio, como uma flecha veloz que corta em duas partes uma maçã. De repente o olhar do homem ficou distante, seus lábios enfim formavam uma linha reta.



Ele recordava.



E quase dava pra perceber tudo se passando em sua mente como um filme na TV.

E então as palavras saíram, tombadas e pouco nítidas:

-Eu as perdi...



A moça compreendeu o cochicho, mais com o poder da sensatez do que do sentido auditivo. Como se soubesse, exatamente como ele se sentia.

Talvez seu caso fosse pior... Porque no final das contas ela era a culpada, somente ela.

Aquela dor no peito ardia como um gancho cravado no coração... E a cada lembrança uma fisgada rasgava ainda mais a ferida aberta. O peso da culpa queima como o frio do mais obscuro inverno.

Mas o fim daquilo estava próximo, finalmente ela teria paz.

Bastava apenas um passo.

E tudo acabaria.



Ela se voltou para o rapaz, e respondeu tímida:

-Podemos fazer... Juntos?

Um sorriso se fez novamente na boca do rapaz, tão confortante e amigável ele respondeu:

-Certo, faremos juntos.

Logo ele caminhou sobre o peitoril em direção a moça, e então deram-se as mãos. Tão timidamente quanto duas crianças ao descobrirem o primeiro amor. O calor do toque naquela noite gelada fez a moça fechar os olhos por um instante e esquecer toda a dor.

Sentiu vontade abraçá-lo, mas o momento não permitia.

E então, quando ela abriu os olhos de novo, e viu o fundo a sua frente. Toda a dor e medo voltaram como um soco no estômago, e sem querer ela acochou o aperto de mãos.

Ao perceber ele disse:

-Agora tudo ficará bem Carla, nós dois nos libertaremos da dor.

De repente seus olhos cresceram em surpresa:

-Como... Como sabe meu nome? Nós nos conhecemos?

Ele continuou calado vislumbrando o vazio da queda.

-Quem é você?

Ele levantou a cabeça, e a encarou, bem fundo nos olhos:

-Eu sou Augusto Nascimento.

“Augusto Nascimento?” Teve certeza que conhecia esse nome, era muito familiar. Mas foi só depois que olhou novamente o lenço esvoaçante que conseguiu entender.

Seus olhos se arregalaram, seu corpo estremeceu.

-Não... Po-pode ser...

Ela gaguejou.

§ § § § § § § § § § § § § § § § § §



Uma moça dirige um carro apressada, está estressada, atrasada para o emprego, tentando resolver alguns problemas do trabalho falando no celular e ao mesmo tempo tentava limpar o excesso da maquiagem com um lenço, usando o espelho interno do carro.

Vira uma esquina bruscamente e nem nota o sinal vermelho.

Ao mesmo tempo, uma mãe atravessa a faixa de pedestre carregando sua filha de pouco mais de dois anos no colo, ela também corre apressada, pois avistou seu ônibus chegando ao fim da rua.



Os corpos se chocam.



E a física segue a risca todas as suas leis. Distorcendo o corpo, mudando a matéria.



O parabrisas vira pó e o carro é banhado numa textura vermelha forte.

O odor é facilmente reconhecível.



Ela sai do carro em choque e foge correndo, acaba esquecendo um lenço azulado com o desenho de uma flor no carro.



§ § § § § § § § § § § § § § § § § §



-Você é o marido dela!



Antes que ela possa esboçar qualquer outra reação ele se joga puxando-a pela mão.



A queda acontece em câmera lenta.



Não há gritos.



Só o fim.



E a paz de uma noite gelada.

sábado, 28 de maio de 2011

Caramba, já faz tempo, né?
Mas enfim, pelo menos ainda tou vivo. Não muito criativo, mas ainda vivo.

"Coelhinho da páscoa o que trazes pra mim?"

Hoje trago um 're-make' de um conto que achei perdido no meu guarda-roupa, pelo que me lembre esse daí já deve ter mais de 4 anos, como minha criatividade anda nula o jeito é apelar pra antigas ideias.

Então é isso.

Boa leitura.

Coisas da Vida



Acordei às seis horas, como de costume, naquela segunda-feira nublada. O relógio não despertou por algum motivo, e aquilo me dava um mau pressentimento.

Passei vinte minutos até conseguir me levantar da cama, parecia estar duelando com a preguiça, e ela estava me dando uma surra. Mas conhecia uma arma fatal a este mundano pecado capital: um banho gelado!
Quase que me arrastando, fui até o banheiro, despi-me e senti, na sola do pé, o piso gelado que me fez um calafrio... Toquei a mão na manivela que abre o chuveiro, respirei fundo, pois sabia que a água devia estar estupidamente gelada por causa do clima. E, em um ato de suprema coragem, abri o chuveiro de uma vez, ao máximo, e me endureci esperando a água tocar o meu corpo.
Mas nada se fez... Olhei pro chuveiro, fechei a manivela e a abri de novo. Nada aconteceu...
- Puta que pariu!
Resmunguei dando um soco na parede, o que fez o chuveiro tremer e uma gotícula de água escorrer e pingar em meu ombro. Senti como se aquilo penetrasse na minha pele como fogo de tão gelada. E ainda machuquei a mão...

E só agora lembrei que não tinha pago a conta de água, por falta de dinheiro.
Teria que banhar no quintal, com a água do balde, que deveria estar abaixo de zero graus Celsius. Suspirei, vesti minha cueca e peguei a toalha junto ao sabonete. O xampu tinha acabado na semana passada, e no momento estava sem dinheiro pra comprar outro. Teria que me virar assim mesmo.
O quintal era aberto, sem telhado, alguns baldes de água se empilhavam ao pé de uma parede cheia de limo e lodo (nem sei se são as mesmas coisas...).

Dava até um certo nojo banhar ali: “por que não limpei quando tive tempo?!”.
Pouco depois, já tinha começado a me molhar, e a primeira jorrada de água pareceu corroer minha pele igual a um banho de ácido sulfúrico. Em certo momento, a fim de limpar melhor o pé, decidi colocá-lo sobre o tanque de lavar roupa. Fiquei apoiado em um único pé, enquanto passava a escova no outro. Quando fui trocar os pés, escorreguei no limo maldito e caí de costas!

Sorte a minha não ter batido a cabeça! Fiquei uns trinta segundos ali, caído no chão, a olhar pro céu; eu só pude resmungar, enquanto sentia todo o meu corpo doer:
- O Senhor tá de brincadeira, não é?!
Terminei o meu banho, percebi que tava atrasado e comecei a fazer as coisas às pressas: tomei café frio, comi pão de quatro dias (o bicho tava mais duro do que eu em final de mês) e o gel de cabelo acabara antes da hora e não deu de passar por todo o cabelo. E agora? O que fazer? Lembrei que ainda tinha alguns potes de gel usados guardados, fui até eles, cortei todos ao meio, comecei a pegar aqueles restinhos que sempre sobram no fundo do vidro. Ser pobre é foda!
Peguei minhas coisas e corri para o ponto de ônibus.
Por sorte eu morava só, numa quitinete na periferia da capital. Fora o único lugar que eu consegui arrumar com o dinheiro do estágio de jornalista, no jornal impresso mais mal-sucedido da cidade. O dinheiro que ganhava só dava pra pagar aluguel, luz e água... E quando eu economizava, o que não era o caso. As refeições, eu tinha de fazer na casa dos meus pais.

A única coisa que não achei estranho naquele dia foi o ônibus entupido de pessoas. Sempre peguei ônibus lotado e já era coisa natural ficar espremido durante cinquenta minutos infernais. Cheguei ao jornal e vi apenas o seu Maurício, o segurança, que ainda estava abrindo o portão. Fiquei intrigado, perguntei-lhe as horas e ele me disse que eu estava mais de uma hora adiantado.
-Puta que pariu!²
Isso é que dá! Ter só um relógio em casa e não comprar pilhas pra ele periodicamente. Apressei-me pra nada!

Suspirei... Decidi entrar, sentar e esperar. Passei o tempo todo entediado, a olhar pro nada, e o pior é que eu tentava dormir, mas não conseguia.
O Jack – chamava-o assim porque tinha um cabelinho igual ao samurai do desenho –, meu amigo estagiário, foi um dos primeiros a chegar. Ao me ver, foi logo dizendo:
-Teu cabelo tá mais estranho que o normal.
Sabia exatamente o que ele queria dizer...
Então ali se iniciava as minhas seis horas de serviço escravo. A primeira coisa que aprendi com estágios é que no exército, você descansa mais. Eu já fiz de tudo naquele jornal! Já fiz e levei cafezinho pra todo mundo que trabalha no jornal, já virei manobrista e já até capinei...! Sem falar em todas as outras coisas que não me vêm agora...
Mas lá eu conheci um cara muito gente boa: era o Reginaldo, colunista. O cara escrevia muito bem, costumava me inspirar nele... Sem falar que uma vez ele até publicou um texto meu.
Mas foi nesse dia que eu descobri que jamais devemos confiar demais em um homem. Ele me pediu pra que comprasse seu almoço. Como de costume, fui até o restaurante da esquina e comprei um bandeco. Levei o almoço para o escritório dele. Ele estava só, e, ao entregar, perguntei:
-Mais alguma coisa?
Ele se virou pra mim com um olhar diferente, e, insinuante, ele disse:
-Quero sim... - depois deu uma lambida nos lábios superiores da boca.

(-Puta que pariu!³)

Aquilo me deu um nojo da porra! Depois, ele veio se aproximando e acariciou o meu rosto.
“Caralho! O Reginaldo é veado! Bem que o Jack me falou..."

E sabe qual é a pior?! Eu não podia fazer nada, pois era esse “miserável” quem fazia as recomendações pro chefe, em outras palavras, era ele quem ia me dar o emprego!
Ele se aproximou mais e começou a tocar meu pescoço e desceu a mão para o meu tórax. Cerrei os punhos - eu não aguentei aquilo - e mandei um soco na boca do maldito!

Ele foi empurrado pra trás com a força do golpe. E foi logo colocando a mão no queixo, por causa da dor.

Eu não pude evitar mostrar a minha fúria no rosto. Ele ficou me fitando, com raiva, por alguns instantes.
Fui salvo pelo chefe, que entrou na sala. Ele percebeu o clima estranho, mas não comentou nada... Só me mandou imprimir e jogar fora alguns textos. Rapidamente fui fazer o que ele disse.
“Agora tou fudido! O cara que faz as recomendações é um puta de um boiola! E eu acabei de enfiar a mão na cara dele!”
Encontrei-me com o Jack na sala de impressão e comentei, ainda nervoso, o que tinha acontecido. Então ele me contou que já tinha ido dormir dois finais de semana na casa do Reginaldo. Fiquei mudo.

Ele saiu da sala.
“Definitivamente tou fudido! Apenas eu e o Jack somos estagiários, e,enquanto eu tou batendo no ‘cara das recomendações’, ele ta comendo o rabo do veado todos os finais de semana!”
Aquele era o pior dia da minha vida.
Deu duas da tarde, meu horário de almoço. Essa era a hora em que tudo se acalmava mais pra mim, pois tinha de voltar só as quatro, para arrumar algumas coisas.
Cheguei à casa da minha mãe e não a encontrei. Ela tinha deixado o almoço pronto dentro do forno, mas eu estava sem fome.

Enquanto cutucava a comida com o garfo, refletia sobre tudo que estava acontecendo, “todos esses seis meses de sofrimento pra nada...”.
De repente, o telefone toca e eu atendo. Era a minha namorada. Nosso relacionamento já estava meio abalado e fazia alguns dias que não a via. Ela foi logo despejando, enfurecida:
-Por que você não me liga mais?
-Tô sem tempo. –eu respondo, tentando manter a calma.

-Tá sem tempo?! –ela escandalizou.

Depois, começou a gritar, dizendo que eu não era o mesmo, e aquele papo todo que as mulheres falam antes de dar um “pé na bunda”. E foi justamente o que ela fez: me descartou ali mesmo e ainda disse isso, antes de desligar o telefone:
- Pelo menos o Mário me entende...
“Mário?! Quem diabos era esse filha da puta?!”

Tempos depois descobri que ele era um amigo do trabalho dela. Bem que eu achava estranho quando ela propôs sexo anal de repente... e olha que eu já tinha tentado várias vezes isso com ela no início de nosso relacionamento, mas ela nunca aceitava!

Maldita, perdeu as pregas com o tal Mário! E eu sou porra de um corno.

Voltei para o trabalho, tão feliz quanto cheguei pela manhã; ou seja, pessoas em enterros sentiriam pena de mim.

Todos já se retiravam do local e eu ainda tinha que organizar uns materiais.

Vinte minutos depois, e eu ainda tava longe de terminar... Foi quando ouvi uma voz feminina:
-Onde encontro o Jack?
Era uma moça bonita, cabelos castanhos encaracolados, e um corpo bem desenhado e não pude deixa de perceber, também, a sua feição de tristeza.
-Ele já foi. - eu respondi, evitando olhar pra ela.
Ela ficou parada por uns instantes, olhando para o nada. E, enquanto eu continuava o meu trabalho, pude perceber uma lágrima escorrer pelo rosto da moça.

Naquela situação, fingi não ter visto e estar concentrado no que estava fazendo.
Quando ela deu dois passos para trás, para voltar de onde veio, eu disse:
-Você quer um café ou uma água?
Ela parou. Tinha toda certeza do mundo que ouviria um: “Não, muito obrigada.”.
Mas o que ela disse foi:
-Pode ser...

Ofereci uma cadeira e lhe entreguei o café, e,enquanto eu ainda arrumava as coisas, conversávamos.

-Você percebeu alguma coisa estranha no Jack de uns tempos pra cá?
Ela provavelmente era a namorada do “come-veado”. Eu poderia ter feito a caveira dele, poderia ter dito que todo fim de semana ele deixava de sair com ela pra ir foder com uma bixa! Mas não, apenas disse:
-Não...
-Vocês são amigos, não são?! Ele já me falou de você algumas vezes...
-Espero que nada de ruim.
-Não... Ele apenas tem medo... Diz que você é dez vezes melhor do que ele.
-Isso não é verdade... –eu disse. Fui até sincero, pois já tinha lido alguns textos do Jack e eram excelentes, sem falar na sua gramática, que era perfeita.
Ela ficou em silêncio, e perguntou:
-O Jack anda muito estranho comigo...
“É que ele achou um rabo mais lucrativo!” as palavras palpitavam em minha mente, então comentei tentando amenizar a situação:
-Vai ver é o trabalho...
Ela ficou em silêncio por mais algum tempo, e perguntou:
-Eu posso me desabafar com você?
-Eu prefiro que não. –respondi na hora. Percebi que ela levou um choque.

Ela permaneceu em silêncio. Logo eu havia terminado, me levantei e disse:
-É melhor assim, depois você pode acabar se arrependendo de algo que disser... Espero que você me entenda.
-Estou arrependida agora.
-Me desculpe por ser rude... Não tive um dia legal. Quer sair pra tomar outro café? Acho que agora posso ouvir esse seu desabafo.
-Agora não quero mais.
Olhei pra cara dela. Nos encaramos por cinco segundos. Então eu apenas disse, dando as costas a ela:
-Que pena, eu iria pagar... e olha que não faço isso todo dia!
-Você é irritante, sabia? –ela disse quase brava, e eu respondi à altura:
-As pessoas vivem me dizendo isso... – arrumava minhas coisas para ir embora. Ela continuava sentada.

Já não tinha mais ninguém lá e as luzes estavam quase todas apagadas. Coloquei a mochila nas costas e comentei:
-Vamos, você não pode ficar aqui.

Ela rapidamente se levantou e me acompanhou:
-Como consegue ser tão irritante? Parece que faz o tempo todo, isso!
-Você é o que? Psicóloga?
-Estou no terceiro ano. –ela respondeu, “enchendo a boca”.
Perguntei, curioso:
-O que você aprende nesse curso?
-Posso deduzir suas intenções, agora mesmo.
-Seria interessante. –eu propus, e ela então começou:
-Você ta doidinho pra me levar pra sua casa e transar comigo.
Eu comecei a rir. Ela estranhou e perguntou:
-O que é tão engraçado?
-Ou seu ego é muito grande ou acho que essa não é a sua vocação.
-Ah, é?! E então, no que você tá pensando?
-Ah...Eu? Hoje é sexta, então só quero ir pra casa da minha mãe a tempo de assistir a novela junto com ela e ouvir ela conversar com os personagens mesmo sabendo que eles não estão ouvindo. Depois, assistir o jornal com o meu pai e perguntar sobre tudo o que eu não souber, e ele vai me explicar de um jeito que só ele sabe. Depois vou dormir, para que amanhã consiga sobreviver mais um dia. Mas se achar conveniente o sexo, posso até admitir que estava certa.
Ela finalmente sorriu e disse:
-Eu aceito aquele café.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Ínfinus 7

Me desculpem, me desculpem...

Sei que demorou bastante pra essa parte sair...

Maaaaas...

...Pelo menos saiu, né?

Então, que posso dizer a vocês: Leiam esta bagaça e pronto.

Obrigado e boa leitura.



Ínfinus

Parte 7


Desespero, agonia... E vice versa.

...


Uma sala escura.

Um jovem acorrentado.


A desnutrição é clara em sua aparência medonha, assim como a desidratação, que salpicava em sua pele.

Aquele odor vomitante...

Necessidades básicas que foram suportadas até que somente a pura necessidade lhe tomasse o corpo.

Horas... Dias... Semanas... Não havia nenhuma noção de tempo.

Agora a sensação de “quase-morte” ia e vinha.

Nunca havia acontecido tantas e tantas vezes em tão pouco tempo... Bastava despertar de sonhos horríveis e agüentar poucos minutos de “lucidez” até cair de novo nesse estado.

Agonia insuportável.

Desespero interminável.

Desejei morrer várias vezes. Pra falar a verdade, nunca desejei tanto algo em toda a vida.

E em alguns momentos de delírio, gargalhei ao meu amigo fantasma, minha mente não mais me controlava.


E Eduardo sabia que eu não estava bem... Mesmo sendo imortal, aquilo lhe preocupava.

Talvez um mal pior que a morte estivesse me tomando: a loucura.

Estar naquele estado por tanto tempo... Enlouqueceria a qualquer um.

E isso deixava Eduardo apavorado... A solidão... Aquela mesma que lhe dominou, quando sua alma foi tomada de seu corpo naquele dia...

O fato de não poder ser visto, ou mesmo notado.

Aquilo era tão frio, tão só... Não podia acontecer de novo. Não podia! Ele tinha que fazer algo, agora era a hora dele pensar, de ajudar o amigo. Mas o que um reles fantasma podia fazer? Sem nem mesmo conseguir sair do lugar?

Absolutamente nada.

Ele quis chorar, mas Eduardo não sabia mais como fazer isso.


Então quando a dor passava, eu sonhava.

Sonhava que estava em casa, que tudo estava bem.

Que dormia tranquilamente em minha cama, enquanto a TV ligada dizia algo sem nenhuma importância, os pôsteres colados nas paredes lhe faziam companhia, o som do computador tocava algo tranquilo e relaxante.

Como era bom estar em casa...

Então a dor me acordou bruscamente de novo.

Meus olhos mortos, não conseguia mais abri-los.

Não conseguia mais distinguir o real das ilusões que minha mente criava:

-Ah, não mãe... Hoje não vou pra escola. Por favor... Deixe-me descansar... Estou tão cansado... Tão cansado...


De repente as luzes acenderam aquilo me fritou as pálpebras como carne na chapa quente.

A sala agora iluminada parecia outro lugar. Como se a luz renovasse todo o local.

Eduardo então pode perceber o que lhe prendia, era um desenho no chão, uma espécie de circulo... Sempre que ele saía de dentro do circulo, uma força invisível lhe puxava de volta.

Magia! A vampira também era uma feiticeira.

Então logo em seguida entraram na sala dois homens, usavam aventais, carregavam utensílios de limpeza.

Rapidamente começaram a me limpar.

Eduardo não entendeu o que se passava, perguntou:

-Quem são vocês? O que está acontecendo?

Não obteve resposta alguma.

Logo em seguida a vampira surgiu na porta, observou os homens, como se fiscalizasse. Entrou na sala, me observou mais detalhadamente, nossos olhares finalmente se encontraram... E eu tive um devaneio, talvez uma lembrança, algo muito esclarecedor. Mas estava cansado demais pra ter algum tipo de reação. Em seguida a mulher ordenou:

-Ponham-no de pé.

Os homens me ergueram facilmente, um pedaço de couro vivo, agora mais limpo. Mesmo assim a vista ainda não deixava de ser horrível. Perguntou aos homens:

-Me parece fraco o suficiente, o que acham vocês?

-Sim, não conseguirá tentar nada.

-Ótimo. Preparem-no, o leilão começará em algumas horas.

Dita estas palavras, encarou o fantasma.

Eduardo ficou imóvel, aquela mulher conseguia produzir nele um sentimento que há muito tempo ele não sentia: o medo.

-O espírito ficará comigo. Tenho outros planos pra ele.

-Sim senhora.

Em seguida saiu da sala, e pouco tempo depois me colocaram numa cadeira de rodas e me levaram dali, deixando mais uma vez Eduardo só. E por mais que ele tentasse pensar em outra coisa... Já tinha perdido todas as esperanças.

...


Consegui ficar lúcido por um instante, e era como se o simples fato de respirar me causasse dor. Sentia meu estômago engolir meus outros órgãos, e só o fato de tocar um osso no outro com um pouco mais de força já me causava estúpida dor, minha língua seca não conseguia pronunciar uma única palavra.

Abri os olhos.

Percebi então que só podia ser outro devaneio.

Estava em um imenso salão, ocupado por várias pessoas, que me observavam de longe e comentavam uns aos outros. Todos muito bem vestidos bebiam em suas taças e comiam seus petiscos distribuídos por garçons aqui e ali.

Uma festa de gente rica.

O que estou fazendo aqui?

De repente, comecei a ouvir uma voz que vinha de todos os lados:

... Absorveu mais de 5 imortais, sendo um deles, Leonardo Callaski no incidente que todos devem ter ouvido falar. O lance mínimo é de cinco milhões.”

De repente algumas pessoas começaram a levantar os braços, então vi um velho, reconheci na hora:

Senhor Musagi! O que ele estaria fazendo ali?! Afinal, onde eu estava?! Droga... Meu corpo mal conseguia se curar, devido a minha desnutrição. Estava totalmente indefeso ali.

Lutava com todas as forças para continuar acordado. Minhas pálpebras pesavam... Meu corpo não resistia.


Depois de algumas pessoas levantarem seus braços ouvi um grande burburinho de conversa, então ouvi a voz que vinha de todos os lados, dizer:

- Vinte e cinco milhões do senhor ali, alguém dá mais? Não? Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três. Vendida ao senhor de sobretudo. Sua mercadoria será entregue ao fim do leilão.”

Então fui levado dali, mas assim que saí, notei um outro na cadeira de rodas sendo empurrado para onde eu estava, o centro do salão. Aquilo era um leilão... Mas o que estava sendo leiloado?

Levaram-me a uma sala, onde me amarraram há uma maca. Procurei por Eduardo, não o vi. Comecei a me preocupar... Mas agora era tarde, estava fraco demais. Não consegui agüentar... Quase morri de novo.

Então os sonhos começaram novamente...



Tudo passou. A dor, a agonia, o desespero.

Só restou-me a paz.

Um conforto degustado por cada músculo, cada sentido, cada partícula de meu corpo.

Não... Eu não queria acordar.

A realidade é brutal demais pra mim.

Quero continuar a sentir essa paz que me assola o corpo.

Então permaneci imóvel, naquele conforto, nem mesmo ousei abrir os olhos.

Não, de modo algum podia acordar de novo para aquele desespero todo.

Então horas se passaram.

E a paz se manteve.

De repente senti vontade de urinar, não me segurei, apenas deixei fluir... Senti o liquido quente derramar sem nenhum pudor.

Opa! espera um momento! Havia algo errado... Eu senti?! Mas que merd...!

Subitamente me levantei de uma cama, havia acabado de me mijar todo. Ainda nervoso, procurei saber onde estava, então vi um quarto bonito. Tudo bem arrumadinho e limpo.

Quer dizer... Pelo menos estava até a última gota de urina sair do meu corpo.

Senti uma dorzinha no braço, vi um pouco de sangue escorrer de um pequeno furo.

Vi então a bolsa de soro, e a agulha que levava o soro ao meu corpo caído no chão... Devo ter derrubado ao levantar subitamente.

Alguém estava cuidado de mim. Isso me pareceu muito estranho...

No corpo, estava vestindo somente um calção folgado.

Tentei procurar na minha mente, alguma lembrança que me fizesse sentido.

Então me lembrei da dor, de Eduardo, da vampira, do leilão...

Ainda estava muito envergonhado pelo que havia feito, quando decidi olhar pela janela.

Então reconheci onde estava: na casa do senhor Musagi, subitamente tive a lembrança dele naquele leilão esquisito... Esse japonês me deve muitas respostas. Instantaneamente procurei por minha espada no quarto, porém só encontrei minhas roupas.

Logo me vesti ainda sentido vergonha pelo inesperado acontecido de ainda pouco.

Então saí do quarto, com passos sorrateiros, como um ladrão a invadir uma casa. Não sabia o que me esperava.


Desci as escadas em direção a sala, foi quando o vi sentado em uma poltrona. De frente, como se já me esperasse. Logo que me viu, perguntou:

-Já se sente melhor?

-Sim. - respondi ainda desconfiado.

-Sente-se, creio que tem muitas perguntas.

Fiz uma rápida vistoria com os olhos de todo o local, não notei nada suspeito. Então me sentei.

E a primeira coisa que perguntei foi:

-Cadê Eduardo?

-Quem?

Ele pareceu surpreso com minha pergunta. Tentei explicar:

-O meu amigo. Fantasma. Estava com a vampira... Cadê ele?

-Provavelmente ainda está com ela.

-Como assim?!

-Só consegui comprar você. Não vi nenhum fantasma no leilão.

-Me comprar? Mas que... Por quê?

-A vampira que lhe seqüestrou, é uma caçadora de imortais. Ela caça imortais no mundo todo.

-Ah merda... Mas por quê?

-O sangue. Quanto mais forte o imortal, mais poderes é possível de encontrar em seu sangue. É assim que ela ganha a vida, leiloando imortais para outros vampiros que desejam poder.

-Então eu era uma mercadoria e você me comprou?

-Exato.

-Por quê? Quem é você afinal de contas? É como se já soubesse que eu estaria hoje aqui desde o primeiro dia que pisei nesta casa!

-Sou um imortal, assim como você.

-E por que não me avisou antes?!

-Mexeria muito com sua cabeça.

-Droga, então por que me deu aquela maldita espada?

-Só por precaução. Havia uma possibilidade remota de você não ser sugado por tudo isso.

-E aquele cara... Que eu matei...?

-Outro imortal, escravo de Eva. A vampira que lhe prendeu.

-Eva? Mas que diabo de nome clichê da porra.

-É apenas como ela é conhecida. Provavelmente não é seu nome verdadeiro.

-Certo... Então, ele foi apenas uma isca?

-Digamos que sim... A vampira costuma usar escravos imortais para que possam absorver outros imortais e assim aumentar seu poder, e valor no leilão. No entanto, ela não esperava que você vencesse, mas como venceu... Decidiu não sair no prejuízo, então te seqüestrou e o vendeu.

-Maldita... Então, como faço pra ter meu amigo de volta?

-É algo muito complicado...

-Diga como! Eu farei de tudo.

-Terá que seqüestrá-lo de volta, é a única maneira.

-Então eu o farei!

-Interessante. Acha que você sozinho vai conseguir se infiltrar no castelo de Eva e roubar um de seus “brinquedos” tão fácil?

-Tenho que tentar.

-Acho que não conhece os riscos garoto...

-Eu fiquei preso sem água ou comida por dias, num buraco escuro, por milhões de vezes desejei morrer por que só o fato de respirar queimava meus pulmões, tive que ver meu melhor amigo perder todas as esperanças em mim... Sou sua única saída... Fodam-se os riscos!

-Certo, então... É um garoto de personalidade forte. Acho que devo ajudar.

-Como assim?

-Você já matou alguns imortais, certo? Absorveu-os.

-Sim...

-Então possui muitos poderes. Só que ainda não os conhece.

-Poderes?

-Sim. Eu o ajudarei.

-Ajudar? Por quê?

-Porque Eva é minha inimiga também.

-O que ela lhe fez...?

-Algo há muito tempo... Mas o importante que saiba por agora, é que estou do seu lado, e lhe ajudarei a ficar muito mais forte.

-Então vai ser meu mestre?

-Creio que sim.

-E que tipo de treinamento terei?

-Hum... Se eu contar agora, provavelmente irá desistir.



Continua um dia... (ou não).