Um conto longo, enfim!
Pois é, hoje trago um conto de verdade. Cansei de enrolar vocês com aqueles mini-textos e decidi fazer algo mais "cheio".
É só, espero que gostem. E não esqueçam de comentar.
Boa leitura.
-É um conto erótico, professora.
Tinha dezesseis anos e havia decidido ser escritor.
E como tal pedi sugestões a minha professora de português para auxiliar-me no começo da minha jornada literária. Ela, como uma ótima professora que sempre foi, se encantou com a idéia e logo sugeriu que eu escrevesse um texto de cada classificação na ordem que me conviesse. Quem sabe assim eu me encontrava.
Achei a idéia interessante e então comecei.
E logo, em alguns meses eu já havia escrito: um horror, uma comédia, uma fábula, uma crônica e agora um conto erótico.
Admito que fiquei com receio de ter que escrever algo do tipo e depois ainda ter que mostrar para minha professora... Mas como um bom escritor que eu viria a ser, tinha de ser profissional desde agora.
Agora vou falar dela, a minha professora do segundo ano do ensino médio: Alice.
Não tinha mais que trinta anos, usando aqueles pequenos óculos de leitura e um cabelo em forma de concha que mal tocavam os ombros, se vestia de forma simples e discreta como manda o formalismo escolar.
Às vezes costumava me encarar por cima dos óculos, o que sempre me deixava sem jeito.
Professora querida por todas e de fácil convivência. Adquirimos intimidade quando ela pediu para a turma uma redação com tema livre, então eu fiz um texto de como seria escrever uma redação. Ela pareceu ter gostado muito, e daí em diante começamos a conversar mais, a principio só sobre literatura e temas ligados à didática.
Até certo dia, em que a encontrei num bar, desses meio chiques, tinha ido com uns amigos, a verdade é que nem queria ir... Nunca fui de sair, ou seja, era nerdão mesmo.
Ela se mostrou tão amigável quanto na escola, estava ela e mais uma amiga a quem educadamente me apresentou, e perguntou se não queria me juntar a elas. Lógico que aceitei. Preferia estar ali e ter provavelmente uma conversa decente com conteúdo do que ficar zanzando pelo salão em busca de garotas que nunca iria conseguir conquistar.
E parecia que eu estava realmente certo, na mesa não mais conversas politicamente corretas de aluno e professora, mas sim, palavrões soltos sem desconforto, assuntos gerados pelo calor do momento, pelo gosto da bebida.
E então a partir desse momento, mesmo na escola ela mantinha uma conversa mais aberta comigo, claro que sempre levando em consideração o momento.
E foi em uma dessas conversas mais reservada que mostrei meu conto mais recente, meu primeiro texto com conteúdo adulto.
-É um conto erótico, professora.
Ela soltou um sorriso simples, desses em que os lábios só se movem uns dois centímetros, e me lançou um olhar que não consegui traduzir na hora.
-Como assim, um conto erótico? – ainda sorrindo, como se aquilo fosse uma piada.
-Sim. Exatamente isso.
-Que loucura é essa, menino?
-Me veio à mente, eu escrevi. É um gênero como qualquer outro.
-Vai querer ser levado a sério escrevendo contos eróticos?
-Por que não? Na literatura o erotismo é tão trivial quanto qualquer outra forma de expressão.
-Sim, mas normalmente ele vem apenas como um elemento, não como o gênero predominante.
-A senhora mesmo disse que não importa o gênero, se algo é bem escrito provavelmente agradará a maioria.
-Se isso for uma brincadeira sabe as conseqüências que terá, certo? –ela disse com um certo tom de ameaça.
-Sim.
-Garoto você tem cada uma! –de repente ela deu outro sorriso se dando por vencida.
No mesmo dia, próximo à meia-noite, eu estava no meu quarto quando o celular tocou, deitado na cama, tentava revisar o conteúdo da prova, era fim de ano letivo. Então apenas peguei o celular e coloquei no ouvido:
-Oi?
-Oi, já estava dormindo?
-Não, pode falar.
-Que bom então, fiquei com medo de perturbar.
Só agora havia reconhecido a voz, era Alice.
-Tudo bem, ainda tou bem acordado.
-Você já havia me dito que dormia tarde por isso criei coragem pra ligar.
-Pois é, durmo um pouco tarde mesmo... Tá tudo bem? Aconteceu algo?
-Não, não... Tô ligando pra avisar que li o conto.
-Sério? Que achou?
-Bem... Não sei por onde começar... Mas o texto está muito bom. O melhor que já fez até agora.
-Mesmo?
-Sim. A narrativa é ótima, os elementos vão se encaixando de uma forma bem legal e quase intuitiva, as ações são muito humanas... E as descrições, uau! Como conseguiu pensar nisso tudo?
-Ah... Usei as imagens que vinham à mente... Só isso.
Ela me fez essas mesmas perguntas quando leu os outros textos, mas normalmente fazia em sala de aula, estava surpreso por ela ter me ligado, ela também nunca tinha me elogiado assim.
-E a inspiração, surgiu como?
-Bem... De fantasias minhas. –senti-me um pouco envergonhado ao dizer.
-Você já fantasiou isso tudo? Mas você só tem dezesseis...!
-É... –estava meio sem jeito.
-Tem coisas aqui, que eu só fui aprender depois de velha! Por exemplo, como você sabia o que era “períneo”?
-Sei lá... Só sabia.
-Esse texto mudou totalmente minha visão de você.
-Sério? Sou tipo um pervertido agora?
Ela riu um pouco antes de responder:
-Não, não... Te imaginava mais...
-Mais...?
-Bem... Não achei que conhecesse isso tudo.
-Como assim?
-Pelo seu jeito... O modo que é na escola...
-Ainda não entendi.
-Vamos deixar isso pra lá?
-Ah... Tudo bem.
-Ainda não consigo acreditar que foi você quem escreveu isso.
-Por que não?
-Bem... Como eu já disse, você só tem dezesseis, e trata os detalhes como se tivesse vivenciado cada momento. Até botei um trecho num site de busca na internet... Pra ver se não tinha copiado. Mas não encontrei nada... Só que eu já desconfiava que não fosse encontrar, dá pra ver que o texto ainda contém uns erros gramaticais e umas coisinhas a mais que são características só suas.
-Ah. Desconfiou de mim? Que feio.
-Fui boba.
Houve um pequeno silêncio, eu ainda tava assimilando a situação.
-Ainda pouco quis dizer que sou inexperiente?
-Como assim?
-Com sexo.
-Ah... Bem... –ela ficou sem jeito, procurando palavras que não pudessem machucar.
-Tudo bem professora. Eu entendi, não precisa ficar sem jeito... Mesmo porque é verdade.
-Mesmo?
-Sim.
-Isso não faz muito sentido pra mim. Como tem todo esse conhecimento de sensações e emoções?
-Eu leio bastante. Mas o principal, eu imagino bastante.
-Como assim?
-Bem... –fiquei sem jeito novamente pra responder.
Às vezes, eu me pego imaginando cenas do tipo, só que faço questão de imaginar detalhe por detalhe, desde roupas, cenários e situações.
-O contexto é muito importante nesse gênero porque é como se ele fosse preparando o leitor aos poucos, e quando as cenas mais pesadas surgem, ele já está tão totalmente envolvido que se deixa levar e nem percebe o quão sem pudor pode ser a situação descrita. E você faz isso com perfeição.
-Mesmo? Ainda achei o final meio fraco.
-É bom. É um pouco repentino, mas termina com uma frase interessante que conclui o texto de forma a se ficar imaginando... Você tem o dom da safadeza.
Nós dois rimos, e logo em seguida houve um pouco de silêncio. Uma pergunta latejou em minha mente e escorregou pela minha boca:
-Acha isso estranho? Me vê como um adolescente com os hormônios à flor da pele?
-Não, longe disso...
Houve um segundo silêncio, dessa vez constrangedor. Subitamente ela comentou:
-Quero fazer uma próxima pergunta... Mas não sei se devo.
-Faça. Sabe que não julgo.
-Tem razão, me sinto até bem à vontade com você.
-É, eu também, nunca teria mostrado o texto e dito essas coisas se fosse a outra pessoa.
-De verdade?
-Sim.
-Gosto disso. Sua honestidade. Então vou fazer a pergunta. -ela disse essa última frase como se ainda buscasse coragem.
-Tá.
-Você já imaginou alguma cena comigo?
-Sim. -A resposta foi instantânea, ela continuou:
-Ainda lembra?
-Sim.
-Pode me contar?
-Na verdade, eu até escrevi.
-Mesmo?
-Sim.
-Quero que você leia para mim, pode ser?
-De verdade...? Não acho minha voz boa.
-Por favor... – o pedido saiu tão suave, que não tive como retrucar.
-Vou buscar.
-Eu espero.
Guardei o que ainda estava sobre a cama, abri uma gaveta e peguei meu caderno de anotações, sentei-me no chão, fazendo a cama de encosto para as costas, coloquei o caderno no colo, pus o telefone de volta e disse:
-Pronto. Posso começar?
-Sim... -A resposta veio logo depois do barulho do degustar de um gole em alguma bebida. Apenas ignorei, respirei fundo e comecei a ler.
Enquanto lia, a cena se desenhava na minha mente nos mínimos detalhes, era quase real para mim.
No silêncio do telefone ouvi a respiração dela ficando um pouco mais acelerada. Durante a leitura ela não disse uma única palavra, mas tinha certeza que Alice estava a ouvir tudo com muita atenção.
Até quando terminei:
-E esse é o fim.
Com uma voz meio fraca, respirando sem ritmo ela pediu:
-Repete a última parte, por favor.
Então, antes que eu terminasse pela segunda vez, ouvi um gemido sufocado em tom crescente, tímido e discreto do outro lado da linha. Agora a respiração forte era muito mais evidente.
Terminei de ler e fiquei em silencio por alguns instantes.
-Gostou?
Ouve mais alguns segundos de respiração forte e em seguida ela desligou.
Sem dizer mais nenhuma palavra.
Fiquei confuso e fui dormir.
No outro dia na escola, tudo acontecia normalmente.
Antes da prova convidei a Carol, a garota a qual eu tinha uma paixão platônica, para dar uma volta por aí, era a última semana de aula, eu tinha que tomar alguma atitude:
-E aí? Vamo lá na praça do coreto depois da prova?
-Quem mais vai?
-Bem... Posso convidar o pessoal...
Ela me olhou com um sorriso e disse:
-Melhor não.
Aquela resposta preencheu o meu peito com um calor, que foi impossível segurar minha felicidade, um sorrisão se alargou no meu rosto.
Fui fazer a prova tão feliz, que mal consegui pensar nas respostas. Era prova de química, não veria a professora Alice até a sexta, quando teria a última prova de português... Eu nem era obrigado a fazer porque já havia alcançado a nota.
Quando terminei a prova saí da sala e não vi mais a Carol, ela tinha terminado primeiro que eu. Peguei o celular pra ligar pra ela foi quando vi a mensagem que não tinha notado antes por estar no silencioso:
“Tô merendando no refeitório. Quando terminar, passa aqui!”
Então me dirigi até o refeitório, os corredores estavam vazios e silenciosos. Em época de prova era sempre assim. Antes que eu pudesse chegar lá, encontrei a Alice:
-Já vai professora?
-Sim... Hoje não aplico prova.
-Que bom então, um tempinho pra descansar.
-Estou merecendo mesmo. E você? Vai pra casa também?
-Sim...
-Eu tava pensando, tenho uns livros em casa e acho que eles poderiam te ajudar... Quer ir comigo buscá-los, lá em casa?
-Sério, mesmo?
-Sim, até faço um lanche pra gente, e olha que como moro só, até aprendi a fazer umas coisas legais.
-Poxa... Ia ser demais!
Subitamente, o sorriso de Carol veio a minha mente. Eu tinha uma escolha a fazer:
Sair com a garota que foi minha paixonite o ano todo?
Ou sair com a professora que está se dando de bandeja?
Procurei analisar tudo, várias opções correram a minha mente em frações de milésimo de segundos.
Eu tomei a decisão.
-Bem professora... Não vai dar. Meu pai tá me esperando... Sabe como é...
-Tudo bem. Fica pra próxima.
-Sim, sim! Com certeza! Promete que não vai desistir da idéia?
Ela riu, e confirmou, nos despedimos e fui embora.
Saí com a Carol, e acabamos ficando. Foi muito bom.
E o melhor é que ela quis de novo, até marcamos pro dia da prova da Alice, já que nós dois estávamos passados não precisávamos fazer.
E então aquela foi a última vez em que vi minha professora de português.
No ano seguinte ela não dava mais aulas, ouvi dizer que havia se mudado.
Às vezes me pergunto se fiz a escolha certa.
Será que fiz?
