domingo, 26 de dezembro de 2010

Ínfinus Parte 6

Opa, opa, opa!

Olha eu aqui de novo com mais um capitulo!

Desta vez as coisas começam a fazer sentido (ou não)!

Boa leitura!



Ínfinus

Parte 6



Então, lá estava eu:

Com um rombo no tórax.

Sem alguns dedos da mão direita.

Os cortes pelo meu corpo ardiam, como se ácido sulfúrico me banhasse.

Mas ainda me mantinha em pé, segurando uma espada.

Ofegante como um cão no sol quente.


E lá estava ele:

De terno e gravata.

Cabelos lisos ao vento.

Olhar firme, penetrante.

Totalmente frio.

Dominava a situação.


Sabia que não conseguiria sair dali vivo, tentei dialogar:

-Por quê? O que nós fizemos?

Ele continuou calado. Insisti por uma resposta:

-Vamos, me diga! Tenho o direito de saber por que um homem como você iria querer me matar!

-Então não sabe por que estou aqui?

-É claro que não.

-Você ainda é um novato? Que estranho...

-Novato? Como assim?! -Tudo que ele falava só me causava mais confusão.

-Você sofreu algum acidente que devia ter te matado, mas que por algum motivo, não matou.

-Mas como você...

Estava sem reação. Como ele poderia saber disso?!

Continuou a falar:

-Aquele foi o seu despertar pra imortalidade. Agora você é um imortal, assim como eu.

-Imortal?! Do que diabos está falando?!

-O único jeito de te matar, é a decapitação. Qualquer outro ferimento irá se regenerar.

-Mas que merda você está falando?! Você só é um maldito louco!

-Estranho você não saber disso e mesmo assim andar com uma espada...

Instantaneamente lembrei-me do seu japa e a historia que ele havia me contado... Mas isto não podia ser possível. Não podia!

-Mesmo se eu acreditasse em tudo isso... Não justificaria meu assassinato!

-É o Ragnarok. Todos nós devemos lutar até a morte... É o nosso destino.

-Isso é tudo baboseira! Você só é mais um psicopata...!

-Não me importa se acredita ou não, sua vida terminará aqui, pela segunda vez. Considere-se uma pessoa de sorte, pois viveu mais que deveria, já que sua morte era quase inevitável no seu despertar.

Vivi mais que devia? Será mesmo que eu deveria ter morrido naquele acidente?! Mas afinal o que é tudo isso... Tudo parece tão surreal...

-Mas e o Eduardo? Ele também é imortal?!

-Não... Só estava no lugar errado com a pessoa errada.

-Então o deixe ir!

-Assim que isso acabar apagarei a mente dele e das garotas, nunca saberão o que aconteceu.

-Como poderei saber que é verdade?!

-Não é uma opção.

A sensação que sentia, era perturbadora, minhas mãos tremiam, a garganta seca, os olhos ardiam.

Porque tenho a impressão de que tudo que ele disse é verdade? Afinal o que diabos está acontecendo? Devo acreditar? Devo lutar até o fim? Devo desistir? O que devo fazer?!

Talvez minha hora já tenha mesmo passado... Eu não deveria mesmo estar vivo, então pra que por a vida de outra pessoa em perigo?! Não posso fazer isso... Tenho que aceitar os fatos.

Tenho que morrer.

-Me desculpe Eduardo por te meter em algo assim...

Caí de joelhos no chão, desolado:

-Ah... Cara, todo esse tempo que passamos juntos... Foi demais. Todas as nossas discussões, nossas conversas... Nossas aventuras. Tudo que nós fizemos juntos foi uma parada muito massa. Desculpa por ter que me despedir numa situação como essa... Mas espero que seja feliz.

E obrigado por tudo.


Eu não sei se ele ouviu...

Estava muito longe.

Mas ele percebeu minha desistência. Percebeu as lágrimas nos meus olhos, e num ultimo instante quando sorri para ele.

Não o vi mais.

Percebi as garotas correndo... Mas o que...? Procurei rapidamente por ele.

Quando voltei à visão para o cara de terno...


-OH! MERDA!!!


Eduardo estava agora pendurado nas costas do tal imortal, ele havia conseguido fugir das garotas. O homem gritou:

-Vou te matar moleque!

Daí em diante foi tudo como um filme em câmera lenta.

Eduardo acabou me dando exatamente o tempo que eu precisava.

Peguei a espada e corri, com todas as minhas forças.

Fazendo aquilo que meu extinto de sobrevivência exigia de mim!


Cravei a espada na garganta do homem.

Como não era canhoto, faltou força suficiente e a espada ficou engatada na metade do pescoço dele.

Mesmo assim, ele caiu no chão instantaneamente. O sangue espirrou, e pude sentir seu gosto.

Mas eu não parei.

Continuei a rasgar o pescoço, como um açougueiro a degolar um porco.

Algo me dizia que ele não morreria até que eu retirasse totalmente sua cabeça do corpo.

Então fiquei lá, por uns trinta segundos, como um sádico a picotar e recortar aquele pedaço de carne, arrancando artéria por artéria.

Só conseguia enxergar uma grande mancha vermelha e sentir o gosto de sangue.

Algo me dominava, ali não era mais eu.

Toda aquela insanidade, toda aquela vontade de matar.

Era a vontade de sobreviver a qualquer custo.


Era tudo que eu tinha no momento.


Quando voltei a mim...

Vi sangue.

Muito sangue.

Estava em toda parte.

Procurei por Eduardo, ele estava no chão, caído.

Sua garganta estava rasgada.

Corri até ele, tentei senti seu coração... Nada.

Tentei fazer aquela massagem cardíaca... E me amaldiçoei milhares de vezes, lamentando não ter prestado atenção nas aulas de primeiros socorros.

Merda, merda, merda, merda...! As meninas haviam pegado ele.

Não... Mas elas também estavam caídas... Porem intactas. Acho que o corte aconteceu quando ele tentou fugir...

Senti um peso no corpo, um aperto no coração. Não consegui segurar o choro.

-Eduardo... Não... Por favor... Não...


Meu corpo estava fraco demais... Não conseguia me manter acordado.

Os sentidos foram se apagando, a dor era insuportável, como se meus órgãos estivessem sendo esmagados.

Então comecei a passar pelos estados de quase morte.

A agonia. A dor. O pesadelo.

Nesse momento, ainda muito atordoado, pude ver relâmpagos iluminando meu corpo. Uma deliciosa sensação de êxtase me tomava, era como um sonho lindo, com a sensação de que quando eu acordasse tudo voltaria a ser como era antes.


Eu acordei.

Em uma ambulância, com o corpo totalmente intacto.

Dois homens de branco à minha volta.

Estava amarrado à maca.

Algumas horas depois, estava em uma sala, com alguns policiais me enchendo de perguntas. Tentava responder, mas nem para mim, minhas palavras faziam sentido.

Ainda estava totalmente abalado com a morte do meu melhor amigo, e com o fato de que acabara de matar um homem.

De repente, entrou uma mulher na sala, de óculos escuros e muito bem vestida, os policiais saíram, conversaram algo lá fora, e eles me liberaram.

Mas antes a moça abaixou os óculos e me encarou. Não consegui decifrar o que se passava em seus olhos. E naquele momento pouco me importava. Eu havia matado um homem...

Não.

Havia matado dois.

Eduardo estava morto e a culpa é toda minha... Se eu tivesse me entregado antes...

Dois dias depois, estava no enterro de Eduardo.

Nada sobre o incidente saiu nos jornais, nunca mais vi as garotas.

Tinha algo acontecendo... Mas eu estava triste demais pra refletir sobre o assunto...

Na noite passada, havia tentado o suicídio...

Enfiei uma faca de cozinha na garganta.

Mas quando acordei de manhã... Ainda estava vivo e apenas com um leve ferimento no pescoço.

Eu era mesmo imortal.

Maldição! Eu nunca quis isso para mim! Nunca!

Quero ser um garoto normal! Quero meu amigo de volta!

Não consegui ver o momento de cobrir o caixão. Me afastei...

Todas as pessoas me julgavam com os olhos... A mãe dele... Nunca vi tanto desespero em toda minha vida. Aquilo era horrível.

A pior cena que eu já havia testemunhado em toda minha existência... Míseros dezessete anos.

Pior até mesmo do que ao dia do incidente.

Preferia cem vezes mais ter que ver corpos despedaçados do que uma mãe desesperada pelo filho que eu matei.

Me sentei embaixo de uma árvore, longe de tudo e todos.

O cemitério era um lugar tão calmo.

Subitamente senti uma dor de cabeça e então comecei a ter lembranças e sensações que não eram minhas. Algo muito esquisito passava em minha cabeça, não entendi o que estava acontecendo. Eram as lembranças do homem que matei. Consegui saber seu nome, sem ele nunca ter dito.

Alguma coisa estava muito errada comigo...

Por quê? Por que logo comigo?!

Inevitavelmente comecei a pensar em Eduardo, e nossos bons momentos.

Quando me dei conta, meus olhos estavam cheios de lágrimas.

Então disse em voz alta, como se quisesse que ele ouvisse:

-Me perdoa cara... Me perdoa, me perdoa.

Repeti as frases algumas vezes procurando um conforto.

-Eu perdôo sim.


Era voz de Eduardo, ele estava do meu lado. Estava morto. Mas estava do meu lado.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Ínfinus Parte 5

Trazendo mais um capitulo desta saga!
Espero que curtam.



Ínfinus
Parte 5

“O primeiro”.
Era assim que o chamávamos.
O primeiro imortal que encontramos desde meu despertar.

Engraçado como tudo começou inocentemente dentro de um ônibus:
-Cara, desde que você começou a andar com essa espada pra cima e pra baixo, tou com medo de ti.
-Não se sente mais seguro comigo assim?
-Definitivamente não. Por que mesmo essa fixação?
-O seu japa disse que eu devia sempre carregá-la comigo.
-E daí?
-E daí o quê?
-Ah... Nada, deixa pra lá. Tu tem cada ideia.
-Eduardo...
-Quê...?
-Aquelas duas garotas estão nos encarando.
-Quais...?
-Aquelas que estão nas cadeiras aqui do lado, mas olha discretamente.
-Hum...
-“Hum...” o quê?
-São bonitas.
-Também achei. Que acha?
-De quê?
-De a gente puxar assunto.
-Tem alguma ideia?
-Pera... Deixa eu pensar um pouco.
Mas nem foi necessário, porque de repente, as duas se viraram pra gente e perguntaram:
-Ei... Vocês sabem como a gente faz para chegar à praia?
-Vixe... Vocês tão no ônibus errado. -Respondi.
-Droga... É que não somos daqui da cidade, sabe? Queríamos visitar a praia, mas estamos bem perdidas...
Eduardo explicou:
-Na verdade, este ônibus vai pro terminal, de lá, é só pegar o ônibus correto, nem precisa pagar outra passagem.
-Ah... Que bom! Mas assim... Vocês podem auxiliar a gente? Tipo... Levar a gente até lá... Porque do jeito que somos tapadas, vamos acabar em outro ônibus errado.
-O que acha Eduardo?
-Acho que não preciso chegar cedo em casa hoje.
-Ai que bom!

As duas sorriram animadas com a ideia. Era óbvio que a gente tinha faturado as molecas, nunca deram tão mole pra mim em tão pouco tempo.
No percurso até a praia começamos a conversar, as duas garotas eram bem legais, vinham de outro estado. Mas pra ser sincero, isso pouco me interessava, o que eu realmente queria era me dar bem!
Como Eduardo era bem mais tímido e sensível, deixaria até ele escolher qual tinha gostado mais, já que sempre fui um bom amigo.
Chegamos à praia no fim da tarde. Como era meio de semana, a praia estava quase deserta. Caminhamos um pouco, à beira-mar. Descontraídos, a nos divertir. E ao acaso nos afastávamos mais ainda da parte civilizada... Até que uma das garotas disse algo, que me fez dar um sorriso discreto, mas muito mal intencionado.
-Vamos para trás daquelas Dunas!

O lugar era completamente deserto, e as dunas formam uma parede que lembra uma onda congelada bem no seu “quebrar”. Desse jeito era impossível alguém da praia olhar o que se passava ali, e vice-versa. A sombra que a duna fazia era extensa, e fazia o lugar como um grande salão meio arredondado.
O céu ainda alaranjado dava um clima bem cinematográfico.
As meninas correram até o pé da Duna, arrastando Eduardo por um braço em uma brincadeira. Fui atrás andando devagar...
Ainda tava longe quando vi uma delas abraçar Eduardo por trás. Na minha cabeça pensamentos pervertidos se somaram, e desta vez não pude conter o sorriso enquanto me aproximava.
Mas só quando estava há uns cinco metros percebi que algo estava errado. Tinha algo próximo à garganta de Eduardo, algo metálico... E quem segurava era uma das garotas. Quando percebi que era uma faca, minhas pernas tremeram.
-O que é isso garotas?
Minha voz saiu tímida, como quem tenta descobrir a brincadeira.
As feições delas mudaram totalmente.
Percebi que Eduardo estava muito nervoso, sentindo o metal gelado pressionado com força contra sua garganta. Elas se mantiveram caladas. Tentei dizer mais alguma coisa.
-Que brincadei--
Subitamente senti um peso sobre minha cabeça e um aperto forte no coração.
Uma presença atrás de mim me fez, com o reflexo, me jogar ao chão.
Quando caí e olhei para trás vi um homem, de terno, cabelos até o ombro, lisos, esvoaçantes pelo vento da praia e uma espada nas mãos. Estava em posição de luta.
Ele fez um comentário que eu estava nervoso demais pra entender:
-Malditos reflexos aprimorados.
Se eu havia entendido bem, aquele cara acabou de tentar arrancar minha cabeça com uma espada!
E por que só de olhar pra ele sentia uma sensação ruim apertando meu peito?!
Nem pude pensar muito, instantes depois ele já estava vindo em minha direção, pronto para me esquartejar.
Tentei correr, mas ele foi rápido, fez um corte em minhas costas, que por sorte a mochila protegeu. A coitada foi rasgada ao meio, derrubando todos os meus livros, e mais outro objeto enrolado em panos.
O homem me encarou e disse:
-Fique parado, e me deixe acabar logo com isso.
-Tá Louco?! Cê quer que eu fique parado enquanto tenta arrancar minhas tripas?!
-É só sua cabeça, garanto que nem vai se dar conta.
Droga! O maldito quer mesmo me matar...
Se eu conseguisse correr, talvez pudesse fugir... Mas e Eduardo?! Deixaria ele?! Meu coração parecia que ia explodir com tudo acontecendo tão rápido.
Tenho que fazer alguma coisa para ajudar Eduardo. Tenho que pensar em algo!
Talvez se eu conseguir fazer ele se distanciar... Depois eu consiga voltar, me aproximando das duas garotas... Então, aí eu poderi---
Subitamente dei outro passo para trás, desajeitado, e me esquivei de outro corte, e ele não parou, usou uma seqüência de golpes cortantes, tentava desviar de todas as maneiras, mas mesmo assim via linhas de sangue jorrando. Meu sangue.
Numa brisa, a areia tocou meus ferimentos. E como infernos aquilo ardeu!
Só então me dei conta do meu estado: Uma poça de sangue já se formava aos meus pés, respirava forte, estava cansado, meu corpo tremia.
O homem à minha frente se mostrava frio, inalterável.
Foi quando meus reflexos não mais me ajudaram.
Senti a espada perfurar meu tórax, como uma brasa de ferro, queimando todos os meus órgãos.
A visão escureceu, não consegui respirar.
Na agonia, me esforçava, puxando ar dos meus pulmões vazios.
E quando finalmente consegui me desengasgar, vomitei sangue.
Então, em um movimento rápido ele removeu a espada, com o impulso, caí de joelhos.
Meus músculos estavam dormentes, minhas pernas estavam fracas.
Já era noite, o frio tomou conta de meu corpo.
Vi a lâmina da espada brilhar... Droga! A espada!
Corri em um ato de desespero para onde estavam os restos de minha mochila, ouvi os passos dele me seguindo, vi a espada enrolada em um pano, estiquei o braço pra pegá-la... Faltavam só alguns centímetros...
Foi quando vi quatro dos meus dedos serem cortados fora.

Não sei exatamente porque, mas aquilo não me parou.
Rapidamente com a outra mão, peguei a espada e fiz um corte em forma de arco na direção dele. Mas o desgraçado foi suficientemente rápido para se desviar...
Ele não demonstrou estar nem um pouco surpreso, ao também me ver com uma espada, pelo contrário, pareceu que já esperava, e ainda disse:
-Certo... Vamos acabar logo com isso.

continua...

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Ínfinus Parte 4


Mais uma parte deste intrigante conto!

Boa leitura.

Ínfinus

Parte 4


Merda.

Cocô.

Excremento.

Fezes.

Bosta.

Era assim que me sentia quando entrava em estado de morte, ou “quase morte”.

Uma agonia que me tomava todos os sentidos, talvez uma sensação parecida com a de um claustrofóbico preso vivo em um caixão, este que estaria enterrado a sete palmos.

Era uma dor estritamente mental.

Nunca sei quanto tempo passo nesse estado, mas logo depois, meu corpo entra em uma espécie de coma.

É o segundo estágio.

Nesse momento, já sinto a ligação do cérebro com o corpo, e a agonia diminui substancialmente.

Nesse estágio já tenho uma maior noção das coisas, mesmo que essa noção seja ainda muito vaga. Na verdade, nesta fase costumo sonhar...

Bem... Às vezes os sonhos são atormentadores, às vezes são como flashbacks.

Ultimamente tenho refeito minha morte no mundo dos pesadelos, digo, não minha morte, mas o “meu despertar para a imortalidade”.

Aconteceu há quase um ano atrás... Na época era um garoto como qualquer outro...

...


-O que tu tá dizendo?! Nunca! O Deadpool é mais fodão que o Wolverine!

-Só tou dizendo que a diferença ente eles dois é insignificante. São quase o mesmo personagem... Pra mim faltou criatividade.

Eu e Eduardo estávamos em uma típica discussão de fim de aula. Caminhávamos já saindo da escola, em direção a parada de ônibus. Estudamos juntos desde o primeiro ano do ensino médio, morávamos no mesmo lado da cidade, então sempre tivemos uma amizade forte.

Era começo de ano, estávamos pouco preocupados com os nossos deveres estudantis, apenas seguíamos um dia após o outro, e ainda havia dúvidas para qual curso fazer vestibular. Enfim, coisas totalmente comuns para pessoas de nossa idade.

Continuamos andando, enquanto eu tentava ridicularizar o argumento de meu amigo, com palavras fortes e xingamentos, percebi ele parar subitamente. Eduardo sempre foi um cara meio medroso, precavido, sempre fazia questão de olhar pros dois lados antes de atravessar a rua... Ao contrário de mim.

Lembro de ouvir o freio, os pneus rasgarem o asfalto com um grito agudo e logo depois sentir o impacto.

Em seguida ver rapidamente tudo rodar: céu, chão, céu, chão, céu e o chão. Exatamente nessa ordem, num curto espaço de tempo de uns 3 segundos.

Minha cabeça se esbagaçou no concreto.

Pronto.

Foi a primeira vez que “morri”.

A primeira vez que a sensação de morte me tomou por inteiro.

Passei pelos dois estágios já mencionados, e então, cheguei ao terceiro:

Abri os olhos e senti a dor mais filha da puta de toda minha vida!

Lembro que a dor era tão grotesca, que meu cérebro entrou em estado de choque, tive um ataque epilético. Fiquei babando e me contorcendo como um cachorro com raiva querendo coçar as costas.

Os médicos já haviam dado a notícia à minha mãe que eu estava morto, mas subitamente eu havia acordado e tava tendo um “piripaque”.

Nenhum deles soube explicar, só podia ser um milagre! Fiquei morto por quase 18 horas, e subitamente havia ressuscitado.

Uma semana depois, eu já estava totalmente curado. Por “sorte”, minha família sempre foi pobre, e em um hospital público, eles não fizeram nenhuma questão de analisar à risca meu corpo, ou o que havia em meu sangue. E eu queria sair o mais rápido possível daquele inferno.

No dia que tive alta, conheci o homem que me atropelou.

O senhor Musagi, um japonês de quarenta e tantos anos, com cabelo só nas laterais. Quando ele me viu, abraçou-me forte, enquanto agradecia a Deus.

Não sentia nenhuma raiva dele, pelo contrário, sabia que a culpa foi toda minha.

Uns dois dias depois eu fui até a casa dele, disse que tinha um presente pra me dar.

Cheguei a sua casa, e só então percebi que era um homem rico. Casa grande, confortável... Morava só.

Então, de uma forma bem formal ele me deu uma wakizashi, famosa espada curta, usada pelos samurais.

Achei muito massa, sempre quis ter uma espada!

Em seguida pediu que eu me sentasse que ele iria contar uma historia.

Contou sobre um homem de sua família, que assim como eu, havia sofrido um acidente e por algumas horas foi dado como morto. Mas assim como eu, também conseguiu voltar à vida. E depois daquele dia, o homem teve uma saúde de ferro, e quando se machucava, facilmente cicatrizava... Seu porte físico se desenvolveu mais do que o normal, era como se tivesse descoberto a fonte da juventude!

Mas um dia algo muito estranho aconteceu.

Ele foi dado como desaparecido, houve buscas, dois dias se passaram.

Seu corpo foi encontrado sem sua cabeça. Ninguém nunca soube o que aconteceu.

Ele pensou um instante me encarando. Suas palavras em seguida foram:

-Sei que é um garoto esperto. Gosto de você. Mas a única coisa que posso fazer por hora, é dizer para tomar cuidado e manter a espada sempre bem afiada.


-Ínfinus! Acorda pelo amor de Deus! Não me deixa só!

A voz de Eduardo se misturou por um instante com o sonho, mas logo consegui despertar, me sentia exausto, quase não tinha forças nem pra falar:

-Estou aqui...

-O que ela fez contigo?!

-Ela bebeu... Meu sangue...

-O quê?! Como...?

-Ela é uma vampira...

-Vampira?! Isso não exis--

Eduardo não conseguiu terminar a frase, até pouco tempo, ele não acreditava em seres imortais, muito menos em fantasmas... Mas agora, por que não acreditar em vampiros?

-Cara... Eu não entendo... Por que nos prender?!

-Será que tem algo haver com o primeiro?!

A expressão de Eduardo foi de horror quando ouviu minhas palavras, e até gaguejou com algumas lembranças invadindo sua cabeça:

-O... Pri-primeiro...

E a única coisa que eu consegui dizer enquanto refletia sobre o assunto, foi:

-Cara, tamo fudido.