domingo, 26 de dezembro de 2010

Ínfinus Parte 6

Opa, opa, opa!

Olha eu aqui de novo com mais um capitulo!

Desta vez as coisas começam a fazer sentido (ou não)!

Boa leitura!



Ínfinus

Parte 6



Então, lá estava eu:

Com um rombo no tórax.

Sem alguns dedos da mão direita.

Os cortes pelo meu corpo ardiam, como se ácido sulfúrico me banhasse.

Mas ainda me mantinha em pé, segurando uma espada.

Ofegante como um cão no sol quente.


E lá estava ele:

De terno e gravata.

Cabelos lisos ao vento.

Olhar firme, penetrante.

Totalmente frio.

Dominava a situação.


Sabia que não conseguiria sair dali vivo, tentei dialogar:

-Por quê? O que nós fizemos?

Ele continuou calado. Insisti por uma resposta:

-Vamos, me diga! Tenho o direito de saber por que um homem como você iria querer me matar!

-Então não sabe por que estou aqui?

-É claro que não.

-Você ainda é um novato? Que estranho...

-Novato? Como assim?! -Tudo que ele falava só me causava mais confusão.

-Você sofreu algum acidente que devia ter te matado, mas que por algum motivo, não matou.

-Mas como você...

Estava sem reação. Como ele poderia saber disso?!

Continuou a falar:

-Aquele foi o seu despertar pra imortalidade. Agora você é um imortal, assim como eu.

-Imortal?! Do que diabos está falando?!

-O único jeito de te matar, é a decapitação. Qualquer outro ferimento irá se regenerar.

-Mas que merda você está falando?! Você só é um maldito louco!

-Estranho você não saber disso e mesmo assim andar com uma espada...

Instantaneamente lembrei-me do seu japa e a historia que ele havia me contado... Mas isto não podia ser possível. Não podia!

-Mesmo se eu acreditasse em tudo isso... Não justificaria meu assassinato!

-É o Ragnarok. Todos nós devemos lutar até a morte... É o nosso destino.

-Isso é tudo baboseira! Você só é mais um psicopata...!

-Não me importa se acredita ou não, sua vida terminará aqui, pela segunda vez. Considere-se uma pessoa de sorte, pois viveu mais que deveria, já que sua morte era quase inevitável no seu despertar.

Vivi mais que devia? Será mesmo que eu deveria ter morrido naquele acidente?! Mas afinal o que é tudo isso... Tudo parece tão surreal...

-Mas e o Eduardo? Ele também é imortal?!

-Não... Só estava no lugar errado com a pessoa errada.

-Então o deixe ir!

-Assim que isso acabar apagarei a mente dele e das garotas, nunca saberão o que aconteceu.

-Como poderei saber que é verdade?!

-Não é uma opção.

A sensação que sentia, era perturbadora, minhas mãos tremiam, a garganta seca, os olhos ardiam.

Porque tenho a impressão de que tudo que ele disse é verdade? Afinal o que diabos está acontecendo? Devo acreditar? Devo lutar até o fim? Devo desistir? O que devo fazer?!

Talvez minha hora já tenha mesmo passado... Eu não deveria mesmo estar vivo, então pra que por a vida de outra pessoa em perigo?! Não posso fazer isso... Tenho que aceitar os fatos.

Tenho que morrer.

-Me desculpe Eduardo por te meter em algo assim...

Caí de joelhos no chão, desolado:

-Ah... Cara, todo esse tempo que passamos juntos... Foi demais. Todas as nossas discussões, nossas conversas... Nossas aventuras. Tudo que nós fizemos juntos foi uma parada muito massa. Desculpa por ter que me despedir numa situação como essa... Mas espero que seja feliz.

E obrigado por tudo.


Eu não sei se ele ouviu...

Estava muito longe.

Mas ele percebeu minha desistência. Percebeu as lágrimas nos meus olhos, e num ultimo instante quando sorri para ele.

Não o vi mais.

Percebi as garotas correndo... Mas o que...? Procurei rapidamente por ele.

Quando voltei à visão para o cara de terno...


-OH! MERDA!!!


Eduardo estava agora pendurado nas costas do tal imortal, ele havia conseguido fugir das garotas. O homem gritou:

-Vou te matar moleque!

Daí em diante foi tudo como um filme em câmera lenta.

Eduardo acabou me dando exatamente o tempo que eu precisava.

Peguei a espada e corri, com todas as minhas forças.

Fazendo aquilo que meu extinto de sobrevivência exigia de mim!


Cravei a espada na garganta do homem.

Como não era canhoto, faltou força suficiente e a espada ficou engatada na metade do pescoço dele.

Mesmo assim, ele caiu no chão instantaneamente. O sangue espirrou, e pude sentir seu gosto.

Mas eu não parei.

Continuei a rasgar o pescoço, como um açougueiro a degolar um porco.

Algo me dizia que ele não morreria até que eu retirasse totalmente sua cabeça do corpo.

Então fiquei lá, por uns trinta segundos, como um sádico a picotar e recortar aquele pedaço de carne, arrancando artéria por artéria.

Só conseguia enxergar uma grande mancha vermelha e sentir o gosto de sangue.

Algo me dominava, ali não era mais eu.

Toda aquela insanidade, toda aquela vontade de matar.

Era a vontade de sobreviver a qualquer custo.


Era tudo que eu tinha no momento.


Quando voltei a mim...

Vi sangue.

Muito sangue.

Estava em toda parte.

Procurei por Eduardo, ele estava no chão, caído.

Sua garganta estava rasgada.

Corri até ele, tentei senti seu coração... Nada.

Tentei fazer aquela massagem cardíaca... E me amaldiçoei milhares de vezes, lamentando não ter prestado atenção nas aulas de primeiros socorros.

Merda, merda, merda, merda...! As meninas haviam pegado ele.

Não... Mas elas também estavam caídas... Porem intactas. Acho que o corte aconteceu quando ele tentou fugir...

Senti um peso no corpo, um aperto no coração. Não consegui segurar o choro.

-Eduardo... Não... Por favor... Não...


Meu corpo estava fraco demais... Não conseguia me manter acordado.

Os sentidos foram se apagando, a dor era insuportável, como se meus órgãos estivessem sendo esmagados.

Então comecei a passar pelos estados de quase morte.

A agonia. A dor. O pesadelo.

Nesse momento, ainda muito atordoado, pude ver relâmpagos iluminando meu corpo. Uma deliciosa sensação de êxtase me tomava, era como um sonho lindo, com a sensação de que quando eu acordasse tudo voltaria a ser como era antes.


Eu acordei.

Em uma ambulância, com o corpo totalmente intacto.

Dois homens de branco à minha volta.

Estava amarrado à maca.

Algumas horas depois, estava em uma sala, com alguns policiais me enchendo de perguntas. Tentava responder, mas nem para mim, minhas palavras faziam sentido.

Ainda estava totalmente abalado com a morte do meu melhor amigo, e com o fato de que acabara de matar um homem.

De repente, entrou uma mulher na sala, de óculos escuros e muito bem vestida, os policiais saíram, conversaram algo lá fora, e eles me liberaram.

Mas antes a moça abaixou os óculos e me encarou. Não consegui decifrar o que se passava em seus olhos. E naquele momento pouco me importava. Eu havia matado um homem...

Não.

Havia matado dois.

Eduardo estava morto e a culpa é toda minha... Se eu tivesse me entregado antes...

Dois dias depois, estava no enterro de Eduardo.

Nada sobre o incidente saiu nos jornais, nunca mais vi as garotas.

Tinha algo acontecendo... Mas eu estava triste demais pra refletir sobre o assunto...

Na noite passada, havia tentado o suicídio...

Enfiei uma faca de cozinha na garganta.

Mas quando acordei de manhã... Ainda estava vivo e apenas com um leve ferimento no pescoço.

Eu era mesmo imortal.

Maldição! Eu nunca quis isso para mim! Nunca!

Quero ser um garoto normal! Quero meu amigo de volta!

Não consegui ver o momento de cobrir o caixão. Me afastei...

Todas as pessoas me julgavam com os olhos... A mãe dele... Nunca vi tanto desespero em toda minha vida. Aquilo era horrível.

A pior cena que eu já havia testemunhado em toda minha existência... Míseros dezessete anos.

Pior até mesmo do que ao dia do incidente.

Preferia cem vezes mais ter que ver corpos despedaçados do que uma mãe desesperada pelo filho que eu matei.

Me sentei embaixo de uma árvore, longe de tudo e todos.

O cemitério era um lugar tão calmo.

Subitamente senti uma dor de cabeça e então comecei a ter lembranças e sensações que não eram minhas. Algo muito esquisito passava em minha cabeça, não entendi o que estava acontecendo. Eram as lembranças do homem que matei. Consegui saber seu nome, sem ele nunca ter dito.

Alguma coisa estava muito errada comigo...

Por quê? Por que logo comigo?!

Inevitavelmente comecei a pensar em Eduardo, e nossos bons momentos.

Quando me dei conta, meus olhos estavam cheios de lágrimas.

Então disse em voz alta, como se quisesse que ele ouvisse:

-Me perdoa cara... Me perdoa, me perdoa.

Repeti as frases algumas vezes procurando um conforto.

-Eu perdôo sim.


Era voz de Eduardo, ele estava do meu lado. Estava morto. Mas estava do meu lado.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Ínfinus Parte 5

Trazendo mais um capitulo desta saga!
Espero que curtam.



Ínfinus
Parte 5

“O primeiro”.
Era assim que o chamávamos.
O primeiro imortal que encontramos desde meu despertar.

Engraçado como tudo começou inocentemente dentro de um ônibus:
-Cara, desde que você começou a andar com essa espada pra cima e pra baixo, tou com medo de ti.
-Não se sente mais seguro comigo assim?
-Definitivamente não. Por que mesmo essa fixação?
-O seu japa disse que eu devia sempre carregá-la comigo.
-E daí?
-E daí o quê?
-Ah... Nada, deixa pra lá. Tu tem cada ideia.
-Eduardo...
-Quê...?
-Aquelas duas garotas estão nos encarando.
-Quais...?
-Aquelas que estão nas cadeiras aqui do lado, mas olha discretamente.
-Hum...
-“Hum...” o quê?
-São bonitas.
-Também achei. Que acha?
-De quê?
-De a gente puxar assunto.
-Tem alguma ideia?
-Pera... Deixa eu pensar um pouco.
Mas nem foi necessário, porque de repente, as duas se viraram pra gente e perguntaram:
-Ei... Vocês sabem como a gente faz para chegar à praia?
-Vixe... Vocês tão no ônibus errado. -Respondi.
-Droga... É que não somos daqui da cidade, sabe? Queríamos visitar a praia, mas estamos bem perdidas...
Eduardo explicou:
-Na verdade, este ônibus vai pro terminal, de lá, é só pegar o ônibus correto, nem precisa pagar outra passagem.
-Ah... Que bom! Mas assim... Vocês podem auxiliar a gente? Tipo... Levar a gente até lá... Porque do jeito que somos tapadas, vamos acabar em outro ônibus errado.
-O que acha Eduardo?
-Acho que não preciso chegar cedo em casa hoje.
-Ai que bom!

As duas sorriram animadas com a ideia. Era óbvio que a gente tinha faturado as molecas, nunca deram tão mole pra mim em tão pouco tempo.
No percurso até a praia começamos a conversar, as duas garotas eram bem legais, vinham de outro estado. Mas pra ser sincero, isso pouco me interessava, o que eu realmente queria era me dar bem!
Como Eduardo era bem mais tímido e sensível, deixaria até ele escolher qual tinha gostado mais, já que sempre fui um bom amigo.
Chegamos à praia no fim da tarde. Como era meio de semana, a praia estava quase deserta. Caminhamos um pouco, à beira-mar. Descontraídos, a nos divertir. E ao acaso nos afastávamos mais ainda da parte civilizada... Até que uma das garotas disse algo, que me fez dar um sorriso discreto, mas muito mal intencionado.
-Vamos para trás daquelas Dunas!

O lugar era completamente deserto, e as dunas formam uma parede que lembra uma onda congelada bem no seu “quebrar”. Desse jeito era impossível alguém da praia olhar o que se passava ali, e vice-versa. A sombra que a duna fazia era extensa, e fazia o lugar como um grande salão meio arredondado.
O céu ainda alaranjado dava um clima bem cinematográfico.
As meninas correram até o pé da Duna, arrastando Eduardo por um braço em uma brincadeira. Fui atrás andando devagar...
Ainda tava longe quando vi uma delas abraçar Eduardo por trás. Na minha cabeça pensamentos pervertidos se somaram, e desta vez não pude conter o sorriso enquanto me aproximava.
Mas só quando estava há uns cinco metros percebi que algo estava errado. Tinha algo próximo à garganta de Eduardo, algo metálico... E quem segurava era uma das garotas. Quando percebi que era uma faca, minhas pernas tremeram.
-O que é isso garotas?
Minha voz saiu tímida, como quem tenta descobrir a brincadeira.
As feições delas mudaram totalmente.
Percebi que Eduardo estava muito nervoso, sentindo o metal gelado pressionado com força contra sua garganta. Elas se mantiveram caladas. Tentei dizer mais alguma coisa.
-Que brincadei--
Subitamente senti um peso sobre minha cabeça e um aperto forte no coração.
Uma presença atrás de mim me fez, com o reflexo, me jogar ao chão.
Quando caí e olhei para trás vi um homem, de terno, cabelos até o ombro, lisos, esvoaçantes pelo vento da praia e uma espada nas mãos. Estava em posição de luta.
Ele fez um comentário que eu estava nervoso demais pra entender:
-Malditos reflexos aprimorados.
Se eu havia entendido bem, aquele cara acabou de tentar arrancar minha cabeça com uma espada!
E por que só de olhar pra ele sentia uma sensação ruim apertando meu peito?!
Nem pude pensar muito, instantes depois ele já estava vindo em minha direção, pronto para me esquartejar.
Tentei correr, mas ele foi rápido, fez um corte em minhas costas, que por sorte a mochila protegeu. A coitada foi rasgada ao meio, derrubando todos os meus livros, e mais outro objeto enrolado em panos.
O homem me encarou e disse:
-Fique parado, e me deixe acabar logo com isso.
-Tá Louco?! Cê quer que eu fique parado enquanto tenta arrancar minhas tripas?!
-É só sua cabeça, garanto que nem vai se dar conta.
Droga! O maldito quer mesmo me matar...
Se eu conseguisse correr, talvez pudesse fugir... Mas e Eduardo?! Deixaria ele?! Meu coração parecia que ia explodir com tudo acontecendo tão rápido.
Tenho que fazer alguma coisa para ajudar Eduardo. Tenho que pensar em algo!
Talvez se eu conseguir fazer ele se distanciar... Depois eu consiga voltar, me aproximando das duas garotas... Então, aí eu poderi---
Subitamente dei outro passo para trás, desajeitado, e me esquivei de outro corte, e ele não parou, usou uma seqüência de golpes cortantes, tentava desviar de todas as maneiras, mas mesmo assim via linhas de sangue jorrando. Meu sangue.
Numa brisa, a areia tocou meus ferimentos. E como infernos aquilo ardeu!
Só então me dei conta do meu estado: Uma poça de sangue já se formava aos meus pés, respirava forte, estava cansado, meu corpo tremia.
O homem à minha frente se mostrava frio, inalterável.
Foi quando meus reflexos não mais me ajudaram.
Senti a espada perfurar meu tórax, como uma brasa de ferro, queimando todos os meus órgãos.
A visão escureceu, não consegui respirar.
Na agonia, me esforçava, puxando ar dos meus pulmões vazios.
E quando finalmente consegui me desengasgar, vomitei sangue.
Então, em um movimento rápido ele removeu a espada, com o impulso, caí de joelhos.
Meus músculos estavam dormentes, minhas pernas estavam fracas.
Já era noite, o frio tomou conta de meu corpo.
Vi a lâmina da espada brilhar... Droga! A espada!
Corri em um ato de desespero para onde estavam os restos de minha mochila, ouvi os passos dele me seguindo, vi a espada enrolada em um pano, estiquei o braço pra pegá-la... Faltavam só alguns centímetros...
Foi quando vi quatro dos meus dedos serem cortados fora.

Não sei exatamente porque, mas aquilo não me parou.
Rapidamente com a outra mão, peguei a espada e fiz um corte em forma de arco na direção dele. Mas o desgraçado foi suficientemente rápido para se desviar...
Ele não demonstrou estar nem um pouco surpreso, ao também me ver com uma espada, pelo contrário, pareceu que já esperava, e ainda disse:
-Certo... Vamos acabar logo com isso.

continua...

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Ínfinus Parte 4


Mais uma parte deste intrigante conto!

Boa leitura.

Ínfinus

Parte 4


Merda.

Cocô.

Excremento.

Fezes.

Bosta.

Era assim que me sentia quando entrava em estado de morte, ou “quase morte”.

Uma agonia que me tomava todos os sentidos, talvez uma sensação parecida com a de um claustrofóbico preso vivo em um caixão, este que estaria enterrado a sete palmos.

Era uma dor estritamente mental.

Nunca sei quanto tempo passo nesse estado, mas logo depois, meu corpo entra em uma espécie de coma.

É o segundo estágio.

Nesse momento, já sinto a ligação do cérebro com o corpo, e a agonia diminui substancialmente.

Nesse estágio já tenho uma maior noção das coisas, mesmo que essa noção seja ainda muito vaga. Na verdade, nesta fase costumo sonhar...

Bem... Às vezes os sonhos são atormentadores, às vezes são como flashbacks.

Ultimamente tenho refeito minha morte no mundo dos pesadelos, digo, não minha morte, mas o “meu despertar para a imortalidade”.

Aconteceu há quase um ano atrás... Na época era um garoto como qualquer outro...

...


-O que tu tá dizendo?! Nunca! O Deadpool é mais fodão que o Wolverine!

-Só tou dizendo que a diferença ente eles dois é insignificante. São quase o mesmo personagem... Pra mim faltou criatividade.

Eu e Eduardo estávamos em uma típica discussão de fim de aula. Caminhávamos já saindo da escola, em direção a parada de ônibus. Estudamos juntos desde o primeiro ano do ensino médio, morávamos no mesmo lado da cidade, então sempre tivemos uma amizade forte.

Era começo de ano, estávamos pouco preocupados com os nossos deveres estudantis, apenas seguíamos um dia após o outro, e ainda havia dúvidas para qual curso fazer vestibular. Enfim, coisas totalmente comuns para pessoas de nossa idade.

Continuamos andando, enquanto eu tentava ridicularizar o argumento de meu amigo, com palavras fortes e xingamentos, percebi ele parar subitamente. Eduardo sempre foi um cara meio medroso, precavido, sempre fazia questão de olhar pros dois lados antes de atravessar a rua... Ao contrário de mim.

Lembro de ouvir o freio, os pneus rasgarem o asfalto com um grito agudo e logo depois sentir o impacto.

Em seguida ver rapidamente tudo rodar: céu, chão, céu, chão, céu e o chão. Exatamente nessa ordem, num curto espaço de tempo de uns 3 segundos.

Minha cabeça se esbagaçou no concreto.

Pronto.

Foi a primeira vez que “morri”.

A primeira vez que a sensação de morte me tomou por inteiro.

Passei pelos dois estágios já mencionados, e então, cheguei ao terceiro:

Abri os olhos e senti a dor mais filha da puta de toda minha vida!

Lembro que a dor era tão grotesca, que meu cérebro entrou em estado de choque, tive um ataque epilético. Fiquei babando e me contorcendo como um cachorro com raiva querendo coçar as costas.

Os médicos já haviam dado a notícia à minha mãe que eu estava morto, mas subitamente eu havia acordado e tava tendo um “piripaque”.

Nenhum deles soube explicar, só podia ser um milagre! Fiquei morto por quase 18 horas, e subitamente havia ressuscitado.

Uma semana depois, eu já estava totalmente curado. Por “sorte”, minha família sempre foi pobre, e em um hospital público, eles não fizeram nenhuma questão de analisar à risca meu corpo, ou o que havia em meu sangue. E eu queria sair o mais rápido possível daquele inferno.

No dia que tive alta, conheci o homem que me atropelou.

O senhor Musagi, um japonês de quarenta e tantos anos, com cabelo só nas laterais. Quando ele me viu, abraçou-me forte, enquanto agradecia a Deus.

Não sentia nenhuma raiva dele, pelo contrário, sabia que a culpa foi toda minha.

Uns dois dias depois eu fui até a casa dele, disse que tinha um presente pra me dar.

Cheguei a sua casa, e só então percebi que era um homem rico. Casa grande, confortável... Morava só.

Então, de uma forma bem formal ele me deu uma wakizashi, famosa espada curta, usada pelos samurais.

Achei muito massa, sempre quis ter uma espada!

Em seguida pediu que eu me sentasse que ele iria contar uma historia.

Contou sobre um homem de sua família, que assim como eu, havia sofrido um acidente e por algumas horas foi dado como morto. Mas assim como eu, também conseguiu voltar à vida. E depois daquele dia, o homem teve uma saúde de ferro, e quando se machucava, facilmente cicatrizava... Seu porte físico se desenvolveu mais do que o normal, era como se tivesse descoberto a fonte da juventude!

Mas um dia algo muito estranho aconteceu.

Ele foi dado como desaparecido, houve buscas, dois dias se passaram.

Seu corpo foi encontrado sem sua cabeça. Ninguém nunca soube o que aconteceu.

Ele pensou um instante me encarando. Suas palavras em seguida foram:

-Sei que é um garoto esperto. Gosto de você. Mas a única coisa que posso fazer por hora, é dizer para tomar cuidado e manter a espada sempre bem afiada.


-Ínfinus! Acorda pelo amor de Deus! Não me deixa só!

A voz de Eduardo se misturou por um instante com o sonho, mas logo consegui despertar, me sentia exausto, quase não tinha forças nem pra falar:

-Estou aqui...

-O que ela fez contigo?!

-Ela bebeu... Meu sangue...

-O quê?! Como...?

-Ela é uma vampira...

-Vampira?! Isso não exis--

Eduardo não conseguiu terminar a frase, até pouco tempo, ele não acreditava em seres imortais, muito menos em fantasmas... Mas agora, por que não acreditar em vampiros?

-Cara... Eu não entendo... Por que nos prender?!

-Será que tem algo haver com o primeiro?!

A expressão de Eduardo foi de horror quando ouviu minhas palavras, e até gaguejou com algumas lembranças invadindo sua cabeça:

-O... Pri-primeiro...

E a única coisa que eu consegui dizer enquanto refletia sobre o assunto, foi:

-Cara, tamo fudido.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Pronto, mais uma parte do conto.

Boa leitura!



Ínfinus

Parte 3



-Você está aí, Ínfinus? Eu não consigo ver nada... Estou preso! Por favor, diga algo!


Acordei com a voz de Eduardo, meu pescoço ainda doía como um maldito torcicolo:

-Estou aqui... Droga... Tou arrebentado...

Estava amarrado ao chão por alguma coisa de ferro gelada em um lugar sem nenhum sinal de luz. Eduardo estava nervoso:

-Cara, estou cego... E ela pode me ver! Ela conseguiu me prender de algum modo... Onde você está? Está tudo bem?

-Sim... Estou bem... Mas ainda meio tonto... Acho que estou acorrentado.

-Você consegue ver algo...?

-Não...

-Quem é ela?! Já tinha visto?

-Não sei... E estou com medo de descobrir. Como ela conseguiu te ver?

-Eu não sei...! - A voz de Eduardo ainda estava apavorada.

-Como ela te prendeu?!

-Depois que ela te pegou, ela me encarou, e falou umas palavras que não entendi! Então vi um clarão, como se queimassem meus olhos! Aí não consegui ver mais nada! Aí, depois me senti arrastado por algo... Mas nada podia fazer, nem mesmo me mexer... Tinha alguma coisa muito estranha acontecendo, mas eu não podia fazer nada! Algum tempo depois, percebi que estava nesse lugar... Já consegui me movimentar, mas não consigo andar mais que dois passos...

-Por que não...?

-Tem algo me puxando.

-O quê?

-Não sei! Continuo cego! Mas é algo como uma força não palpável...

-Uma “força”?!

-Eu não sei o que é!

-Merda, eu também continuo sem ver nada... Mas fique calmo, vamos resolver isso...

-Cara... Estou com medo... Essa mulher não é normal. Como ela conseguiu me ver? E me prender?!

-Isso é muito estranho... Será que ela quer minha cabeça...?

-Te absorver?

-Sim...

-Acho que não... Se não, já teria feito! Por acaso não percebeu que facilmente ela te dominou?!

-O que diabos então ela quer comigo? O que tenho de importante fora a imortalidade?!

Antes que Eduardo pudesse comentar mais alguma coisa, ouvimos passos se aproximando. Um calafrio me correu a espinha, eu realmente estava com medo. Era a mesma sensação da primeira vez que encontrei um imortal. Um peso sobre a cabeça... Algo que me dominava, enrijecia meus músculos e me tornava inútil.

O silêncio nos dominou.

Uma porta se abriu a minha frente, a luz perfurou a escuridão e machucou meus olhos.

Então a porta se fechou de novo antes que eu pudesse ver qualquer coisa.

Passos se aproximaram de mim e instantes depois senti sua presença à minha frente.

-Quem é você? -Tentei manter a voz firme, meu coração estava acelerado.

Não houve resposta.

Senti umas de suas mãos segurar com força o meu cabelo, puxou minha cabeça para o lado, esticando meu pescoço dolorido. Com a outra mão arranhou delicadamente meu pescoço, como se analisasse o machucado que outrora ela havia feito.

E então senti sua respiração tocar meu pescoço. Tentei gritar:

-Quem é vo--

Minha voz foi cortada pela sensação de sentir todo meu sangue ser puxado pra fora com um beijo sufocante. A mulher havia fincado os dentes em meu pescoço!

Merda...!

Ela estava mesmo me bebendo pelo pescoço, como um suco de caixinha.

Sentia suas presas folgarem e apertarem novamente à medida que dava goladas em meu sangue. Senti meu corpo ficar dormente, algumas partes começaram a formigar.

Estava totalmente indefeso. Nenhum som era emitido. Nem de mim, nem dela.

E então ela bebeu, bebeu até que não restasse nada no meu corpo.

Bebeu até que a sensação de “quase-morte” me tomasse novamente, uma agonia de tentar morrer e não conseguir. Como aquilo era horrível! Toda a dor que já havia conseguido nessa loucura toda, não era um milésimo do que essa maldita sensação me provocava.

E a única coisa que eu conseguia pensar a uma altura dessas, era que havia feito duas grandes descobertas: a primeira era que vampiros realmente existiam... E a segunda era que eu estava definitivamente fodido.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Simplesmente imortal 2

Sim, queridos irmãos, eu lembrei que tenho que postar a continuação do ultimo conto!

E como prometido, está aí mais um capitulo.

Algumas explicações, e mais um monte de dúvidas, só pra deixar todo mundo curioso!

Próxima semana volto com a terceira parte.

Boa leitura.


Simplesmente Imortal


Eduardo apareceu repentinamente ao meu lado, como uma sombra que emerge do nada.

Um fantasma. Meu melhor amigo é um espírito.

E por algum motivo que desconheço sou o único que pode vê-lo e ouvi-lo.

Existem muitas dúvidas ainda sobre o que ele pode ou não fazer...

Diz que ser um espírito não é tão mal assim, não existem mais necessidades carnais, mas que tudo agora parece muito vazio e sem cor... Consegue atravessar paredes, mas não voar por aí.

Os efeitos da física são diferentes aplicados a ele...

Uma vez ele pulou de um prédio para testar como seria sua queda, foi quase como se planasse, tocou o chão como quem dar um salto desajeitado.

Ainda investigamos o motivo pelo qual ele vaga na terra, o por que de não ter ido pro céu ou pro inferno... Se é que isso existe.

A primeira coisa que disse ao me ver em pé, solitário, na parada de ônibus foi:

-E então... Como foi lá?

-Divertido, como sempre.

-Então ele era mesmo um imortal? -Ele ignorou minha piada, como sempre faz, respondo sua pergunta sem vontade:

-Sim.

-Absorveu-o?

-Sim.

-Droga... Essa guerra nunca vai acabar?

-Pelo menos temos a eternidade pra tentar resolver isso.

Novamente a piada não soou tão engraçada quanto imaginei.

-Por que não me deixa ver o que acontece? -Ele me perguntou sem olhar diretamente pra mim, como se fugisse dos meus olhos.

-Você não precisa ver aquilo... Não tem nada de legal em ver duas pessoas se estripando até não poderem mais.

-Mas e se algo acontecesse contigo?! Eu poderia ajudar de alguma forma!

-Não! Você já teve violência demais... Tenho que te poupar de tanta insan--

-Eu sou um fantasma! -Ele me interrompeu bravo, e continuou a expressar toda sua raiva:

Não existe mais nada que possa me assustar! E pare de me tratar como se eu fosse seu irmãozinho mais novo!

Fiquei surpreso com a reação dele, então ri com o canto da boca. Ele tinha razão... A pior parte para ele já havia passado. O que ainda podia acontecer de ruim com ele? Eu estava sendo idiota, e só agora havia me dado conta disso.

Mas é que Eduardo sempre foi um cara muito tranquilo, amigável... Um ano mais novo que eu, mas pra mim, era realmente como se ele fosse meu irmãozinho. Nunca quis transportar ele pra esse mundo de carnificina que mais parece um filme trash, classe b. E a culpa é toda minha...

Olho para ele... Suas roupas rasgadas, ainda são as mesmas do dia do ocorrido... Tenho flashes que perfuram minha mente, as lembranças são tão fortes que chego a ficar tonto por um instante. Maldito devaneio... Tento mudar o rumo da conversa:

-Vou sair de casa.

-Como assim? -Eduardo se assustou com a ideia.

-Largar tudo. É muito perigoso manter uma vida dupla.

-E o que dirá aos seus pais?

-Que eu estou morto.

-O quê?! -Surpreendeu-se, estava na cara que ele desaprovava a ideia. Argumentou:

-Imagina o que seus pais vão sentir?! Imagina a dor que causará a eles?!

-Acha que não pensei nisso?! Acha que é fácil pra mim?! Eu analisei todas as possibilidades, e todas colocavam minha família em risco. Este é o único modo de seguir com isso...

Seus olhos vazios me encararam, ele não estava convencido. Mas eu já havia feito a minha decisão.

De repente vi uma moça se aproximando. Usava uma jaqueta de couro, cabelos lisos negros e longos, pele pálida. Eu ainda me perguntava de onde ela tinha saído, quando ela parou, e perguntou:

-Tem fogo?

-Não... Eu não fu--

Subitamente senti a mão dela apertar minha garganta, e com um único braço me levantar do chão, sufocando-me. Era uma força descomunal! Senti meu pescoço estalar, ela havia quebrado-o, minha visão ficou turva instantaneamente.

Era sensação mais agonizante que um imortal podia sentir, a de “quase-morte”.

Perdi todas as forças nos músculos e todos os sentidos. Droga... Alguém havia me fodido legal.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Simplesmente Imortal



Opaa
! Tou de novo na aréa!
E trago-lhes novidades. Sim, novidades!


A parada é a seguinte:
Decidi reescrever sobre meu super-heroi favorito, um certo imortal adolescente...
Ele se chama Ínfinus, um rapaz que descobre que é "imortal"(como disse na linha de cima), e por causa disso vai passar por mals bocados. Acredito que o conto possua conteúdo adulto,
Coisas como:

"Nudez Artistica" (Artistica...? Hum... Tá... Sei...).
"Violencia vasta e sem sentido" (Nem tão sem sentido assim).
"Linguagem Depreciativa" (Chingamentos pra caralho!).

Então se você estiver procurando ler sobre coisas alegres e felizes, acho melhor fechar a página e ir comprar pão.

Antes de começar a bagaceira, só preciso fazer mais alguns comentários que possam ser relevantes ao decorrer da
novelinha:
1- Primeiro: Estou me comprometendo a semanalmente postar um capítulo. É claro que por causa disso os capítulos serão bem curtinhos, algo em torno de uma página e meia.
2- Segundo: Pra quem já assistiu Highlander, algumas coisas parecerão óbvias... Mas como sei que hoje em dia o pessoal é dotado de pouca cultura inútil boa, vou explicar algo crucial para bom entendimento dá série:
No contexto em que escrevo, imortais podem sim morrer! E a única maneira de fazer isso é por decapitação. Quando um imortal decapita o outro, ele absorve algumas habilidades e alguns conhecimentos do falecido. Então por causa disso, os imortais caçam uns aos outros, em busca de poder e conhecimento.
3-Terceiro: Divirta-se.


Ínfinus

Simplesmente Imortal


Imagine como deve ser não morrer.

Exatamente isso. Ter a eternidade a disposição.

O que faria?

Acabei de completar 18 anos e sou imortal.

O que decidi fazer com minha imortalidade?

Usá-la para o bem da humanidade.

Como?

Me tornando um super-heroi.

Tenho uma vida dupla: de dia estudo para o vestibular, à noite enfrento pessoas malvadas.

Por quê?

Eu ainda não sei ao certo.

Já cheguei tão próximo da morte várias vezes, e garanto-lhe que não é porque sou imortal que não sinto dor.

Já vi coisas que me fizeram não dormir e não comer direito por dias.

Já matei. Sem honra alguma. Apenas fiz, por puro instinto de sobrevivência.

Envelheci 60 ou 70 anos em oito meses, absorvendo a sabedoria de outros imortais.

Deixei meu melhor amigo morrer, e hoje ele me acompanha como um fantasma atormentado.


Não sou um super-heroi tradicional, não tenho roupa colante e nem uma capa.

Apenas uma meia velha que cobre meu rosto e uma camisa toda remendada, exatamente como um marginal de periferia.

Minha única arma é uma espada. E meu único superpoder é não morrer.

Não tenho um batmóvel, ou um jato invisível. Me locomovo a pés ou de ônibus.

Os jornais já falam de mim... Mas não como um heroi, algo como “O justiceiro!”.

Por que eu estou te contando tudo isso? Tenho uma língua grande, falo pelos cotovelos. Mas meu intuito é mostrar que não tenho nada a perder aqui...

Então...

Pode vir com tudo, seu cuzão!


A espada dele era bem maior que a minha, brilhava bastante com o reflexo da lua cheia, e tinha uns detalhes em alto relevo bem interessantes... Seria um belo modo de ser rasgado ao meio, mesmo naquele beco escuro.

Seus movimentos eram silenciosos, suas passadas eram rápidas, seus cortes eram certeiros. Minha camisa precisaria de ainda mais remendos... Sem falar no sangue, depois que seca é horrível de se tirar o cheiro.

Mas eu também já não sou nenhum leigo no assunto, sei defender, esquivar, contra-atacar... Mas principalmente sei jogar sujo.

Um saco negro é arremessado ao ar e cortado ao meio, uma chuva de lixo o distrai momento suficiente para que minha espada atravesse seu ombro e o leve até a parede com o impacto do ataque. Ele grunhe com a dor, mas sem largar a espada ele efetua um corte vertical em meu tórax, o sangue jorra, mais grunhidos abafados saem de minha boca, o corte instantaneamente começa a arder, eu torço a lâmina da espada, ainda encravada em seu ombro, em movimentos circulares.

Ele urra de dor.

O sangue nos mela sem nenhum pudor, meu inimigo está ficando inconsciente. Faz mais um corte em meu peito, desta vez sinto que está perdendo forças... Mesmo assim, ainda consegue me arrancar muito sangue. Em uma fração de segundo, eu removo a lâmina de seu ombro e cravo novamente em seu peito, pude perceber que se fosse um centésimo mais lento, minha cabeça estaria agora pendente em meu pescoço por um único nervo. Ele havia sido quase tão rápido quanto eu.

Ainda não largou a espada, mas está sem forças pra qualquer tipo de movimento, de sua boca ouço pragas e palavrões. Ele sabe que está acabado.

Tirei-lhe a espada do corpo em um salto para trás, mantendo uma distância segura. Ele desaba ao chão sentado, está começando a perder os sentidos. Já estive nessa posição de “quase morte” algumas vezes, é tão ruim como estar engasgado por um punhado de cacos de vidro. Devo acabar com seu sofrimento o mais rápido possível, mas antes, eu pergunto:

-Por quê? Por que me caças?

Ele não me olha. Eu já sei a resposta.

Um corte horizontal, rápido e limpo. O sangue jorra. A cabeça dele roda assustando alguns ratos.

Definitivamente não é a cena mais bonita do mundo.

Tenho a sensação de dor por todo o corpo, um forte ardor no peito, como uma queimadura que pulsa latente. Os olhos ardem, lacrimejam. Minhas mãos tremem, minha respiração é forte e descontrolada. A cabeça dói, como se um tumor estivesse explodido dentro do meu cérebro. Minha garganta é seca, meus lábios estão rachados... O que eu não daria por um pouco de saliva agora?!

E então começa.

Um brilho vai aumentando gradativamente do corpo estirado, pequenos relâmpagos passam dele para mim, estou absorvendo todo o seu conhecimento. Os raios lambem minhas feridas, trazendo um momento de êxtase, não consigo ver nada além de um forte brilho que emana de mim. Sinto a energia adentrar poro a poro, célula a célula. Meus ferimentos são curados rapidamente, e um calafrio percorre minha espinha quando tudo termina.

Estou de volta ao beco sujo, todo coberto de sangue com um corpo sem cabeça aos meus pés e uma espada em minhas mãos. Procuro minha mochila, troco de camisa, guardo a espada, me lavo com um pouco de água que carrego numa garrafa, logo depois de um gole, tento disfarçar o cheiro de sangue com perfume barato e momentos depois, estou na parada de ônibus. É hora de ir pra casa.


E assim eu vivo como Ínfinus.

Um heroi? Não sei... Talvez somente um assassino.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Descoberta de um homem só.

"Éguas! Hassã postando algo novo no blog?!"

Pois é senhores, consegui arrumar um pouco de criatividade nula pra escrever mais um conto.
O de sempre: um conto escrito em primeira pessoa, onde o protagonista/narrador fala um pouco de seus problemas pessoais.


Obrigado, e divirtam-se.
Por: Hassã Viana


Descoberta de um homem só.

Nunca pensei que olhar o fim de tarde pela janela do meu apartamento pudesse me trazer relativa paz. Não é uma paz comum... Mas sim, uma paz triste.
Tem algo me incomodando.
Não sei o que é.
Talvez a cor das paredes da sala. Esse “amarelo creme” nunca me agradou.
Quem sabe o som alto do vizinho...? Não, impossível! É AC/DC. Rock de qualidade.
O cheiro de carne queimando... Claro que não. Todo dia a Dona Lurdes come comida bem passada, e eu nunca me incomodei em todos esses nove meses que estou aqui.
Todos esse nove meses?!
Não me dava conta que fazia tanto tempo assim... Então é isso que me incomoda?
Lembro do primeiro dia que cheguei aqui com a Clara, ela estava muito empolgada, um sorriso feliz. Era a realização de um sonho encontrar um lugar só pra nós dois. Pera... Fui eu quem foi comprar a tinta pra pintar a sala, fui eu quem escolheu o amarelo creme.
Então que sensação estranha é essa? Esse vazio chato.
Será que é fome...? Acabei de jantar!
Mas comi pouco, a comida tava gostosa demais... Estou acostumado à alimentação ruim que a Clara me proporcionava. Mas as sobremesas eram ótimas...
Hoje tô de folga, passei o dia inteiro dormindo, e só pegarei serviço amanhã pela manhã, devia estar totalmente tranquilo... Mas o que é essa sensação que me agonia? Que me deixa inquieto.
Por que acho que tem algo errado?
Será que tô me esquecendo de algo?
As chaves tão no bolso, o celular em cima da mesa, minha carteira ali perto da TV... Não preciso alimentar o Tevez, a Clara levou ele.
Ela parecia gostar mais daquele cachorro do que de mim, devia ter dado outro presente pra ela... Aquele sacana vive mijando em cima das minhas chinelas, sem falar que gasto mais dinheiro comprando coisas pra ele do que pra mim.
Mas lembro que valeu a pena, porque o sorriso que a Clara deu quando viu aquele filhotinho feio... Acho que só vi ela sorrir assim, nos nossos primeiros meses de namoro.
Pra ela, cuidar daquele cachorro chato, eu acho, era algo como se preparar pra ter um filho...

Uma hora dessas ela estaria assistindo aquele programa chato sobre animais, no sofá da sala enquanto comia pipoca queimada e muita manteiga... E ele correndo pra lá e pra cá na casa, feito um otário. Talvez seja isso que esteja me incomodando:
O silêncio.
Sem aqueles dois aqui, a casa fica vazia.

Caminho até o quarto, a sensação ruim me acompanha... Ela está começando a me incomodar de verdade, será que estou com febre? Lembro que tinha que passar meia-hora adulando a Clara pra ela poder tomar o remédio quando ficava doente. Ôh mulher teimosa! Mas foi graças a sua teimosia que eu consegui ser promovido... Se não fosse ela insistir para eu mostrar meu projeto para o chefe, ele nunca teria me notado na empresa, e sem isso eu continuaria sendo um estagiário ridículo.

Engraçado... Acho que ela é a garota cheia de defeitos mais perfeita que já conheci.
Por que foi mesmo que terminamos?
Ela disse que tinha me afastado dela. Que havia me tornado indiferente demais.
Gritou e esperneou.
Fiquei calado, nunca tinha visto ela tão alterada.
Pegou o cachorro e foi pra casa da mãe.
Faz uma semana desde então, nem tive muito tempo pra pensar nisso. O trabalho me atarefou, acho que hoje é a primeira vez que penso nisso mais de cinco minutos. Engraçado, como quase não senti falta dela neste meio tempo.
Talvez esteja mesmo me distanciando. Talvez não a ame mais.
Talvez a chama do nosso amor tenha se apagado. “Acontece nas melhores famílias”.
Tivemos ótimos momentos... mas acabou.
Hora dela seguir a vida dela e eu a minha.

De repente o telefone toca.
Lembro que ela era a única atender os telefonemas... Era “a secretária da casa”, como nossos amigos costumavam dizer. Sempre mudava a entonação da voz pra dizer o “alô”... E costumava ficar enrolando o cabo do telefone no dedo, enquanto conversava.

O telefone continua tocando, não quero atender.

O cabelo lhe cobria o rosto e ela ficava assoprando-o, entretendo-se com o esvoaçar das mechas.
Às vezes o Tevez aparecia se jogava no chão e oferecia a barriga para ser coçada. Clara como uma boa mãe mimando o filho, usava o pé pra acariciar o filhote... O desgraçado ficava todo dengoso!

Não acredito...
Estou com ciúmes de um cachorro?!
Então é isso?! Está sensação que me incomoda é Ciúmes?! E de um cachorro?
Se sinto ciúmes, então significa que ainda a amo? Ou que eu sou só um egoísta malévolo?

- Merda!

A porra desse telefone não para.
Queria que a Clara estivesse aqui, ela atenderia o telefone, ela é a secretária da minha casa. Da nossa casa.
Sem ela...
Eu fico assim.
Vazio.

Pra ter ela agora aqui, até aceitaria o cachorro mijão.
Mesmo que fosse pra continuar brigando comigo. Adoro quando levanta uma das sobrancelhas pra apontar o dedo, faz um certo charminho... Acho que nem ela percebe isso.
Mas acho que a perdi. Deve ser por isso, essa sensação.
É a perda.
A ausência.
O que foi que eu fiz?! Por que a deixei ir? Por que eu não a impedi! Por que não disse que amava demais?!
Droga.
Telefone de merda. Para de tocar!
Faz uma semana que não converso com ela!
Uma semana inteira... Acho que já faz mais de dois anos que não passamos tanto tempo longe assim. Não importa, vou ligar pra ela, me desculpar!
Droga, droga, droga, droga, droga, droga, droga.
Deve ser ela ligando agora!

Corro em direção ao telefone.

Vou dizer que estou arrependido, que ela é tudo pra mim! Que sou a merda de um idiota!

Por favor, não pare de tocar!

Ela tem que saber que esta distância me faz mal! Que eu necessito dos seus gestos, sua voz, sua presença! Ela ainda tem que saber que eu...
QUE EU A AMO!

Atendo o telefone, minha mão treme, antes que ela diga qualquer palavra, eu me desculpo:
- Clara, por favor, me desculpe... Eu não sabia o que estava fazendo, por favor, volte pra casa! Não consigo ficar longe de ti! Estou prestes a ficar louco! Clara... Eu te amo! Nunca tive tanta certeza disso.
Notei um súbito silêncio do outro lado da linha, só uma respiração se mantinha.
- Por favor... Diga algo.
Insisti. Meu coração acelerado ansiava por uma resposta!

-Ah... Aí não é da pizzaria MaxChicken?

Droga. Era Engano.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Uma singela declaração...

Dia 17 de julho.
Dia mais feliz de minha vida.



Tenho uma mania feia de prometer coisas...



Soneto Para a Minha Fernanda

Um soneto devo escrever
Para o amor de minha vida ler,
Gostar e se surpreender
Com o que eu tenho a dizer

Às vezes me sinto perdido no mundo
Tenho vontades desnecessárias
Mas você me domina em um único segundo
Arrancando minhas mágoas

Fico sem palavras... Uma sensação de primeira vez
Você permanece calada... Dando razão à sua sensatez
Me sinto um nada... Sentindo seu poder de lucidez
E sua feição rosada... A amar toda minha estupidez

E num último suspiro ser só teu
E que nunca nos pertença o Adeus




E que quando não puder te encontrar na tela do computador, ou no auto-falante do celular... Que esteja em minha mente.
Quando as palavras não forem mais necessárias, só os seus gestos já me bastam.
Quando nossa musica tocar e não sabermos dançar... Só o silêncio será suficiente.
Quero degustar de cada sorriso seu, mesmo que a piada não seja minha.
Sua beleza para mim está em tudo que te rodeia. Tudo que te pertence.
Se um dia ficar cego, que teu corpo me guie.
Quero ter a eternidade ao teu lado... Mesmo se a eternidade durar apenas algumas horas.
Que eu tenha coragem de subir até o topo da macieira, sempre que quiser te ver.
E na madrugada, quando sem assunto ficamos, sua respiração me acalma.

Não importa... Em todos os momentos, te levo comigo. Mesmo você estando à milhares de quilômetros...
E é por isso, que pergunto:


quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Return...?


Enfim, voltei.
Quer dizer... Sempre estive aqui.
Mas enfim postei uma desgraceira nova nessa merda de blog.
Revoltado?

Nada.

Só triste por não trazer um conto ou "algo reflexivo".
Prevejo escrever mais este tempo, mas nunca fui bom vidente.
Então pra galera (um ou dois peladinhos) que andam esperando algo interessante pra ler aqui esses tempos: me perdoem.

Pra não ser uma postagem completamente inútil... Decidi falar de mim.
[leitor fechando a janela do blog agora]

Mas falar o que? -Não faço idéia.
Acontecimentos recentes? -Pouco interessante.
Vida amorosa? – [...]
Sonhos Perdidos? –Besteira, todos ainda tão de pé.
Filmes? Livros? –Melhor não.
O Tédio? –Completo e absoluto.
Sim. Este dominador de mentes maléfico, criador do nada, inspirador da insatisfação.
Persegue-me.
Eu fujo.
As vezes até corro.
Mas é só eu parar pra respirar, e lá está ele.

Maldito.

Mas foda-se o tédio.
Percebi que sinto saudade.
De que?

De mim.
E situações que me metia.

Sinto falta de uma noite.
Uma madrugada.

Sinto falta de uma tarde.
De um lugar.

Sinto falta de uma pessoa.
Uma moça.

Mas acredito que amanhã, sentirei falta de hoje.
Porque nostalgia é minha droga.
Um viciado em lembranças.
Caçador de momentos.
Experimentador do novo.
Criador da felicidade.
Felicidade não se procura e se acha.
Somente se cria.

Do nada...


...ou do tudo.

terça-feira, 18 de maio de 2010



Porque eu desenho muito bem, e que ninguém discuta isso.



Antes que eu morra.


"Antes que eu morra, quero viver sem ter medos, quero acordar sem receio.

Antes que eu morra, quero realizar meus desejos, pularei de um prédio, fugirei do tédio, serei eu mesmo mais uma vez, me tornarei um herói de cueca!
Acordarei as 5 da manhã e me sentarei a beira-mar pra dizer que acabei.
Antes que eu morra tudo vai mudar, e depois isso tem de continuar.
Antes que eu morra, direi que a amo, mesmo que já saiba a resposta, viverei sonhando.



Antes que eu morra serei imortal. "







...

terça-feira, 27 de abril de 2010

PRIMEIRO AMOR, ULTIMA CHANCE.



As vezes eu encontro antigos textos feitos por mim, e quando leio, volto no tempo. Começo a sentir as mesmas sensações e emoções, de quando escrevi. E esse texto aí, é um deles... Algo de algum passado remoto...

Vou dedicar este conto... A uma garota que gosto muito... Minha querida 'Lady Mayrla'!
Tou devendo um conto pra ela já faz muito tempo! Desculpa amor, é que sou inrresponsável mesmo!

Então é só...! Boa leitura!



Primeiro Amor, Ultima Chance.

É engraçado como as vezes as coisas podem acontecer... Quando digo engraçado, quero dizer de um jeito “inesperado” e não engraçado no sentido “feliz” da coisa. Mas a vida é assim mesmo, cheia de ondulações. As vezes bem pequenas, mas já são o suficiente para te fazer tropeçar e cair de cara no chão... Outras vezes essas ondulações são longas, o que torna o caminho uma subida dura e cansativa.
Mas quando você chega no topo e pode ver tudo lá de cima... A impressão é que finalmente venceu. Mas deve ter o máximo de cuidado, pois bem a sua frente a descida é longa, e a queda pode ser fatal.
Agora você me pergunta: por que diabos eu insisto em filosofar o óbvio? Coisas que estão escritas em qualquer livro idiota de auto-ajuda! Coisas que todo mundo já sabe e que normalmente as pessoas insistem em repetir através de novelinhas, filmes e até comerciais.
Simplesmente para fingir que este relato trará alguma coisa de importante para sua vida. O que provavelmente não vai contecer! Afinal, no que as experiências, de um jovem de 21 anos, podem ajudar?
Provavelmente nada.

Tudo começou quando de repente ela me olhou diferente. Não sei se foi o alcool do momento... Talvez o jogo de luz.
Mas ela me olhou diferente, eu pudi sentir. Não era mais aquele olhar inocente, era um olhar mais direto. Mais complicado. Ela não me via mais como seu “amiguinho”, e sim como um homem.
Tanto é que acabamos fazendo sexo no banheiro daquela festa.

A conheci muito tempo atrás... E vale a pena o flashback, pelo menos pra mim!

Tudo começou na sexta série do ensino fundamental, na época, meus hormônios estavam começando a se manifestar... E mesmo assim eu não tive coragem de dizer o que sentia. Nossa relação era intima e amigável a ponto de nos xingarmos sem nem ao menos ligarmos pra isso. Mas mesmo assim não tive coragem de dizer nada sobre o que sentia, já que aquilo tudo era muito novo pra mim...
Ao final do ano nos separamos.
Não houve despedidas, nem choro, nem conversa. A rotina era tanta, que nem mesmo me dei conta que no outro dia não haveria aula... E talvez nunca mais eu a visse de novo.
Passaram-se alguns anos... E lá estava eu, no ensino médio. Bem diferente daquele moleque da sexta-série. Não usava mais o cabelo de qualquer jeito ou caido pra frente, como fazia quando não me preocupava com estetica... Ou seja, quando ainda não me interessava por arranjar uma namorada.
Agora passava dez minutos na frente de um espelho, e a base de muito gel conseguia moldá-lo de forma que meu cabelo parecesse mechas dos desenhos animados japoneses, duas correntes enfeitavam meu pescoço, roupas largas, andar morto, sorriso debochado. Esse era eu aos dezesseis.
Então de repente, em um dia como outro qualquer, depois das férias de julho, entrei na minha turma cumprimentando a galera que não via fazia certo tempo, rindo com as apresentações, me aproveitando dos abraços femininos. O professor ainda não estava em sala, era aquele momento de descontração antes da aula. De repente alguem perguntou ao meu ouvido:
“-Quem é a gatinha?”

Foi quando olhei meio lá no fundo, procurando:
Era ela.

Aparentava meio desconfortável por não conhecer nimguém, mas num instante depois nossos olhares se encontraram. E demorou menos de um piscar de olhos para ela me reconhecer, e um sorriso bem lentamente ir se formando em seu rosto, até que não se conteve, e soltou quase uma gargalhada, foi obrigada a tampar a boca com a mão.
Ela realmente estava feliz em me ver. De repente uma alegria súbita me tomou. Também não consegui segurar o riso, mesmo querendo, pois eu ia parecer um bobão se chegasse lá todo sorridente. Fui até lá com cara de quem não acreditava no que via... Ela se levantou da cadeira, ficando de pé na minha frente. Houve um abraço. Apertado e firme.
-Eu não acredito! Gil, voce mudou um bocado! - Sua voz me soou tão familiar, que por um leve instante olhei pra ela e vi aquela menina de 14 anos da sexta série. Seu rosto não havia mudado muito, nem mesmo a forma de pentear os longos cabelos cacheados... Já no seu corpo, era óbvio que ela não era mais uma garotinha, ainda que a farda escolar não lhe favorecesse.
-Caramba... Lana... Tou sem palavras. -Eu ainda estava meio supreendido, ela continuou:
-Não sabia que você estudava aqui... Mas que bom! Eu tava me sentindo tão estranha por não conhecer nimguém! Cê vai sentar aqui do meu lado, né?! Diz que vai! Por favor!
-Tá bom... Mas vou logo avisando que sou ruim de pesca!

E de repente começamos nos ver quase todos os dias, durante um pouco mais de seis horas por aula, o incrível que continuamos tão amigos quanto da ultima vez que nos encontramos. Eu sentia que ainda gostava dela... Mas a situação de repente se complicou.
Havia uma garota, da escola, que eu passei os seis primeiros meses do ano “cortejando”. Ela era bem legal, sentia que me dava brecha, mas vivia a me enrolar, e nunca havia me dado uma resposta durantes esses seis meses... Mas assim que começou a me ver com Lana, parou de falar comigo. Fui atrás dela... Queria saber porque ela estava tão estranha.
Sua resposta foi um beijo seguido de um: “Eu te quero só pra mim!”. Um mês depois começamos a namorar. Eu e Lana continuamos bastante amigos, afinal eramos da mesma sala, e ela nunca demosntrou ciúme algum de minha namorada, o que sempre me fez pensar que ela não sentia nada por mim além de amizade... E eu retribuía a altura, afinal já tinha uma namorada bonita.
Então, novamente o ano terminou. O último dia de aula foi um tanto trágico pra mim.
Estávamos eu e Lana a conversar, enquanto cabulavamos a última aula do ano no andar superior da escola, sentados a escada, um ao lado do outro.
-É... O ano terminou. -joguei a frase no ar, como quem refletia o momento.
-Verdade... -Lana estava calada. Não costumava ser assim. Mas fiquei na minha, sabia que ela não gostava muito de ser questionada sobre seus problemas, quando queria conversar ela mesmo avisava.
-Foi bom, né? -perguntei. Ela não respondeu, ao invés disso me fez outra pergunta:
-O quê?
-A gente ter se encontrado de novo.
-Ah. -apenas abriu a boca como quem não está afim de falar e só confirmou:
-Foi. Muito bom.
Apenas ri.
-O que foi? Ta rindo de quê?
-Sei lá... Você com essa cara de quem não comeu hoje... É engraçada.
Ela riu, e me beliscou o braço:
-Ah, vai te lascar...
-Ai! -reclamei pelo beslicão.
-Sua bixinha, eu nem beslisquei forte!
-Bixinha, é? Ce vai ver agora!

Então a apertei forte em um abraço, nossos rostos ficaram a milimetros de distância, nossos olhos se encontraram, eu continuei com um sorriso no rosto, mas ela me olhava de forma diferente, séria. Perguntei sem entender o que passava na sua cabeça:
-O que foi, menina?
De repente ela acabou com o espaço vazio, entre meu rosto e o dela.
Senti seus lábios tocarem os meus, mas eu permaneci imóvel, ela também.
Apenas os lábios se tocaram, não por completo, não chegou nem a ser um “selinho”, apenas se tocaram, quase ao acaso. Ficamos ali, naquele quase beijo uns trinta segundos, era como se estivéssemos decidindo.
-Porque você é tão perfeita? -as palavras sairam sem eu querer, como se o meus olhos já disessem isso, mas só o fato de mexer a boca pra falar fazia nossos lábios terem mais contato ainda.
-Você tem namorada. -sua voz saiu cochichada, ela queria convencer a si mesma, de que aquilo era errado, houve novamente o roçar de lábios.
-Perfeita. -não consegui ouvir o que ela disse, só queria sentir o máximo possivel aquela boca tocando a minha.
Ela se afastou. Me deu tchau, com um sorriso triste, e foi embora.
Não consegui pensar no que fazer. Não conseguia nem assimilar direito o que havia acontecido.
Nunca mais á vi, e no final do dia eu já estava sem namorada. As coisas desandaram e ela terminou comigo.
Sem namorada e sem Lana.
Parece que de repente, eu não tinha mais nada. Nem mesmo um colégio pra ir.


Enfim... Voltando a festa.
De repente estamos aqui, nos reencontrando.
Não foi romantico, e nem foi muito bom. O local não era muito confortável, a música muito alta não permitia nenhum tipo de comunicação direta, mudávamos de posição de cinco em cinco minutos, sentia dores musculares quando o negócio começava a ficar gostoso... Enfim, uma transa, sem proteção, de dois bêbados no banheiro de uma festa.
Mas pra mim o que valeu, nem foi o sexo com a garota que foi minha primeira paixão de colégio, mas sim o que veio depois. O olhar que ela me deu naqueles 4 segundos e meio de silêncio, no intervalo de uma música pra outra...
Sei lá, mas aquele olhar de satisfação... Como se realmente valesse a pena cada minuto naquele banheiro sujo. Como se ela tivesse ganho a noite com aquilo, e agora podia ir pra casa com um sorriso gigantesco no rosto, como se eu fosse importante pra ela!
Depois de sairmos do banheiro, só pudi perguntar uma coisa antes de vê-la sumir entre a multidão:
-Está bêbada demais pra se lembrar de mim amanhã?
-Eu não bebo.

De repente meu coração estava sorrindo. A vontade que tinha era de gritar no microfone do Dj: 'Amanhã ela vai se lembrar!'
Mas só que pudi fazer foi dar um tapinha nas costas de um cara que vomitava as tripas do meu lado por beber demais, e dizer:
-Amanhã ela vai se lembrar...!

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Conversando com Lúcifer

Enfim não vou deixar esse mês passar em branco, ta aí mais um conto.
Nada muito especial, nada muito bom, nada de muito novo... Só o de sempre.
Ah, e o final pode ser meio frustrante... Mas não consegui imaginar nada melhor.

Boa leitura.



Conversando com Lúcifer

Era tarde da noite.
O trabalho lhe obrigava a não ter uma vida social, já que horas extras eram o que lhe mantinham vivo. Precisava aproveitá-las, mesmo que lhe arrancasse toda sanidade, mesmo que lhe arrancasse todos os bons momentos, mesmo que lhe arrancasse todas as vontades e forças.
Era a única forma de sobreviver.

Saiu do prédio, cumprimentou o vigia com um gesto simples e caminhou.

A rua deserta.

A lua grande e cheia.

Os sons de seus passos.

As luzes dos postes.

Sua mente vazia.

O vento soprava.

E por um leve momento ele se deliciou com aquela brisa.
Sentir o ar refrescante, naquela noite abafada, foi quase como se sentir vivo novamente.

'Vida?! Afinal para que viver?
Sofrer e sofrer, para que no futuro seu corpo possa descançar, enquanto espera pelo momento final.
'Tudo parece tão vago e sem propósito'.

Demorou alguns poucos minutos até que seu ônibus surgisse ao fim da rua.
E logo lá estava ele, dentro do veiculo, ocupado por ele e mais quatro pessoas, devido ao horário sem trânsito o ônibus se mantinha veloz. Sentado só, olhava para fora da janela, tentando aproveitar aquele vago momento de descanço... Ainda matinha sua mente leve, sem nenhum pensamento...
Apenas sentia. Unicamente sentia cada sensação que lhe alcançava.
O cabelo sendo bagunçado pelo vento.
O cansaço lhe entorpecendo.
Respirava devagar, como se degustasse de cada molécula de oxigênio absorvida.
E sorria com o canto da boca...
Estava rindo de si mesmo, afinal... Não era um idiota sem senso de humor. E de que adiantaria se enburrar? Uma cara zangada nunca lhe daria um salário maior. Por outro lado se soubesse levar as coisas de forma descontraida, até conseguia fingir gostar do que fazia. E agarrava com todas as forças cada momento que conseguia esboçar um sorriso, e o estendia.

De repente uma moça senta ao seu lado.
O rapaz ficou surpreso, não lembra de tê-la visto ao entrar ou muito menos do ônibus ter parado para um novo passageiro.
Era uma moça bonita, usava um longo vestido negro, como se viésse de uma festa. Tinha os cabelos lisos, negros e um olhar simples, ela puxou assunto:
-A noite está agradável, não acha? -sua voz era leve, como se não arranhasse o ar.
-Sim... Muito agradável.
-Como anda o trabalho, Nelson?
O homem se surpreendeu:
-A gente já se conhece?
-Na verdade nunca fomos apresentados, mas eu conheço você e você me conhece.
-Sério? De onde?
-De sempre Nelson.
-Como...? Não entendi... Como é seu nome? - O homem estava confuso.
-Lúcifer. -a moça respondeu.
Nelson ficou imóvel. E riu.
Mentalmente gritou:
-É um traveco?!
Mas apenas disse:
-Não estou interessado no seu trabalho moço.. Ou moça... Ou sei lá o que...!
A moça explicou como se passando um sermão:
-Eu sou Lúcifer... O diabo! O capeta! Satanás... O cara malzão, que fode com a vida de todo mundo!
Dessas vez Nelson gargalhou, e só depois que conseguiu parar, respirou fundo e disse sentindo dificuldades em se controlar:
-Olha... Seu traveco... Não é querendo zoar não... Mas, eu não tou mesmo afim...
A moça ignorou-o por um momento... Voltou-se jogando o cabelo para o lado e o encarou, seus olhos se encontraram, ela explicou:
-Antes que me questione, ouça.
Aquele olhar fritou a alma de Nelson, foi quase como se ele estivesse hipnotizado, e não conseguia nem mesmo se mover. A moça continuou:
-Sei que você não tem uma vida boa, pois eu nunca lhe permiti isso... Pois EU sou seu chefe explorador, EU sou o câncer de sua mãe, EU sou sua namorada infiél, EU sou a questão que lhe reprovou no vestibular, EU sou o 'não' que levou da garota que é apaixonado, EU sou o ladrão que lhe levou a carteira semana passada, EU sou seu pai alcoolátra, EU sou seu ódio, EU sou o mal... Todo ele.
Nelson ficou imóvel por uma segunda vez. Podia aquilo ser verdade? Impossível! Seu ceticismo não permitia acreditar naquilo! Tudo o que aquela estranha moça disse, mesmo que de um ponto de vista diferente, estava correto.
Nelson voltou sua visão para fora da janela do ônibus, e percebeu ter acabado de passar pela frente do local onde trabalha. Era como se o onibus estivesse andando em círculos.
-Lúcifer...? -Nelson pronunciou a palavra como se aquilo fosse lhe trazer de volta a realidade.
-Sim.
Houve silêncio. Nelson ainda processava devagar tudo na sua cabeça, procurava respostas... Mas não as encontravas. A moça exalava um doce perfume, mas que lá no fim lenbrava enxofre, seu corpo transmitia calor de forma anormal, seus olhar mudara, agora era de uma pessoa vazia:
-Não se preocupe, não vim lhe arrastar para o meu lar. Pelo menos hoje não... Vim conversar.
-Conversar? -uma das sobrancelhas de Nelson levantou em desconfiança.
-Sim... Sabe, vocês me fascinam. Podem ser tão idiotas, tão tolos... E ao mesmo tempo tão esclarecidos.
-E o que isso significa?
-Que vocês, para mim, são como uma fazenda de formigas... Onde eu posso fazer qualquer coisa. Eu decido seu destino. Eu decido como sua vida vai ser.
-Então nos tortura?
-Exato.
-Por quê?
-Porque me delicio ao ver seu Pai sofrer por vocês.
-Então nos tortura apenas para ferir Deus?
-Existem outras coisas, mas eu diria que essa é a melhor parte.
-Mas eu não acredito em Deus.
-Besteira... Você sabe que Ele existe, mas não sabe em que forma. E afinal, eu estou aqui lhe dizendo... Não preciso mentir pra você.
-O que quer de mim?
-Já disse, conversar...
-Por que eu?
-Escolhi aleatoreamente. Nenhum motivo especial.
Nelson, olhou de novo pela janela... Procurando algo que fizesse sentido. A moça pegou em sua mão, suas mãos delicadas e quentes momentaneamente pareceram lhe confortáveis:
-Eu tenho uma proposta. -Nelson já havia deduzido:
-Imaginei que teria.
A moça, esperou um pouco... Como se procurasse palavras:
-O que desejas mais nessa vida?
-Viver.
-De que jeito?
-Feliz.
-O que te torna feliz?
-Eu mesmo.
-Idiota... Vamos, diga o que quer... E eu lhe darei.
-Não quero nada de você.
-É claro que quer... Todos querem... Apenas me diga como.
-Continue invisível a mim e nunca mais me procure.
-Pare com isso... Eu continuarei lhe atormentado. Nunca será feliz.
-Talvez. -Nelson desdenhou, e a moça gritou:
-NUNCA SERÁ FELIZ!
-Deixe-me em paz!
-É isso que quer?
-Sim.
-Maldito! Tornarei sua vida três vezes pior!
-Acha que me importo?
-Eu sei que você me teme.
-Eu ignoro o sofrimento. Eu vivo só. Congelado.
-Eu conheço sua vida!
-Então deveria saber mais que qualquer um, não conseguirá nada de mim desse jeito.

A moça, ficou quieta.

-Diga-me a verdade. Minha alma não lhe serve de nada... Quer dizer... É praticamente como se já à tivesse, não?
-Sim. Mas é como eu disse... Só quero conversar...
Nelson ficou calado. A moça pôs dois dedos perto da sobrancelha esquerda, como se estivesse com enxaqueca, e questionou:
-Por que a teimosia?
-Eu sou feliz do jeito que sou.
A moça gargalhou, mas sem a delicadeza de uma donzela, e sim como um macho que arregaça as pernas, põe os braços para trás do banco, e confortavelmente mostra os dentes.
-Não me fale besteira...! Você é feliz? Com uma vidinha de merda dessas?
As palavras da moça pesaram em sua cabeça... Lúcifer continuou:
-Me diga onde está a felicidade em trabalhar até suas pálpebras pesarem, sua mente enfraquecer e seu corpo tombar de tanto cansaço?! -Lúcifer gesticulava brava.
-Quer saber quando vai conseguir um aumento? Um enprego melhor? Só quando aquele seu chefe ordinário morrer, e acredite, aquele homem tem uma saúde de ferro!
E depois ainda vai chegar em casa e ter de encontrar uma mãe doente, em que só vive por se preocupar com o filho! Quantas vezes você já pensou em ter que se libertar dela? Quantas vezes não desejou a velha morta? E sem falar naquela putinha que você chama de namorada... Sabe quem no raio de dois quilômetros da sua casa ainda não fodeu com aquela piranha? Quer saber pra quem ela ta dando nesse exato momento? Pro filho do seu vizinho, e o moleque mal tem quinze anos! E tá fazendo a vaquinha berrar feito um porca parindo!
E você vem me falar em felicidade?
Vamos! Me diga! Onde está a felicidade nisso? Onde?!
Nelson sentiu uma lágrima escorrer dos seus olhos, gelada, ela escorreu pela sua bochecha até chegar no queixo, e suavemente pingou em sua mão fechada sobre os joelhos... Ele sabia que tudo era verdade. Tudo.
Olhou de novo pela janela, era a terceira ou quarta vez que passavam pelo mesmo lugar.
Fechou os olhos, e sentiu outra lágrima escorrer.
Cochichou:
-Eu sou feliz...
A moça fitou-o, esperando dizer algo mais:
-Eu sou feliz...
Dessa vez disse em um tom mais alto.
-Eu sou feliz.
Aos poucos ia criando convicção no que dizia.
-Eu sou feliz!
Lúcifer, apenas ria com o canto da boca, e com os olhos lançavá-lhe um olhar de reprovação. E desafiou desdenhando o pobre rapaz:
-Me prove.
Nelson usou a costa da mão para limpar os olhos. A moça de vestido negro, insistiu:
-Me diga o que te torna feliz!
-O que me torna feliz?
-Sim!
-São os detalhes... Cada um deles.
Lúcifer franziu a testa em desconfinaça. Nelson levantou a cabeça e repondeu:
-Quando acordo, sempre sinto o cheiro do café estupidamente doce que minha mãe prepara com toda satisfação, para mim. E como eu adoro aquele café!
E enquanto tomo café, por alguns leves instantes ela afaga meus cabelos, e reclama como as noites passadas tem sido quentes ou frias demais... Aí quando saio pela porta, noto aquele olhar, o melhor olhar de todos: O de amor sincero e puro.
Aí eu atravesso a rua, chego até a casa da Tânia, minha namorada e levo a Su, filhinha dela, para a escola... E é um dos momentos mais prazerosos do meu dia, ouvir aquela menina de 4 anos cantarolar com sua voz fina, quando não, a me questionar sobre os misterios e os porquês dos Power Rangers ou Bob Esponja... E sempre me dar um tímido beijo no rosto, quando temos que nos despedir.
Em seguida eu pego o ônibus lotado, sufocante, mas sempre passo a maior parte do engarrafamento sobre a ponte, e a vista do rio a está hora da manhã é sempre maravilhosa.
E quando chego no trabalho encontro o Zé, o porteiro, que me cumprimenta com aquele vozeirão dele: 'Aí, o futuro dono desta enpresa...'
Então, daí em diante, passo minhas horas de tormento, mas sempre aliviadas pelo poder de amigos que arrancam minha tranquilidade comentando sobre o que passou na tv na noite passada, ou comentando sobre as mais belas mulheres da enpresa, ou criticando os times dos outros... E quando o senhor Marinaldo vem reclamar, é só fingir que ele é meu pai... E de como sempre fui muito hábil em ignorá-lo.
E na hora do almoço, eu subo as escadarias do prédio... E lá, passo duas horas devorando livros, e consigo sentir as emoções de cada personagem, e imaginar a personalidade de cada autor.
E as vezes, no fim do expediente me encontro com a Cristina... Minha amiga de infância, bem humorada é capaz de acabar com mal humor de qualquer um!
Quando chego em casa... Acabado, e deito na minha cama, a única coisa em que penso é em acordar no outro dia e fazer tudo de novo!

De repente um silêncio absoluto.
Lúcifer se levantou... Olhou para Nelson, dessa vez com um sorriso no rosto:
-É garoto... Você sabe o que quer. Então te vejo um dia desses.
E como se o vestido negro fosse apenas uma toalha enrolada no corpo, ela arrancou rapidamente e a jogou sobre Nelson, deixando-o cego... Ele tentou remover a roupa, mas era como se ela lhe sufocasse! Lhe cobria todo o corpo como um ser vivo e cada vez apertava mais e mais! Nelson se debatia tentando se desprender daquela escuridão. A roupa estava lhe sufocando.

-Ei rapaz! Ei rapaz!
Nelson abriu os olhos apavorado, alguém o acordou.
Era o motorista do ônibus.
-Onde estou?
-No ponto final...
-Ah, droga... -Nelson percebeu que havia passado de sua parada, e que tudo o que aconteceu foi apenas um maldito sonho.
Dali até sua casa eram uns sete quilometros, e a esta hora da madrugada era um pedido de suicídio... Mas o que poderia fazer? A vida lhe ferrou mais uma vez...
E a única coisa que disse antes de sair andando foi:
-Quem sabe se talvez eu tivesse dito sim aquela moça, as coisas mudassem um pouco...

--fim--