Opa, opa, opa!
Olha eu aqui de novo com mais um capitulo!
Desta vez as coisas começam a fazer sentido (ou não)!
Boa leitura!
Ínfinus
Parte 6
Então, lá estava eu:
Com um rombo no tórax.
Sem alguns dedos da mão direita.
Os cortes pelo meu corpo ardiam, como se ácido sulfúrico me banhasse.
Mas ainda me mantinha em pé, segurando uma espada.
Ofegante como um cão no sol quente.
E lá estava ele:
De terno e gravata.
Cabelos lisos ao vento.
Olhar firme, penetrante.
Totalmente frio.
Dominava a situação.
Sabia que não conseguiria sair dali vivo, tentei dialogar:
-Por quê? O que nós fizemos?
Ele continuou calado. Insisti por uma resposta:
-Vamos, me diga! Tenho o direito de saber por que um homem como você iria querer me matar!
-Então não sabe por que estou aqui?
-É claro que não.
-Você ainda é um novato? Que estranho...
-Novato? Como assim?! -Tudo que ele falava só me causava mais confusão.
-Você sofreu algum acidente que devia ter te matado, mas que por algum motivo, não matou.
-Mas como você...
Estava sem reação. Como ele poderia saber disso?!
Continuou a falar:
-Aquele foi o seu despertar pra imortalidade. Agora você é um imortal, assim como eu.
-Imortal?! Do que diabos está falando?!
-O único jeito de te matar, é a decapitação. Qualquer outro ferimento irá se regenerar.
-Mas que merda você está falando?! Você só é um maldito louco!
-Estranho você não saber disso e mesmo assim andar com uma espada...
Instantaneamente lembrei-me do seu japa e a historia que ele havia me contado... Mas isto não podia ser possível. Não podia!
-Mesmo se eu acreditasse em tudo isso... Não justificaria meu assassinato!
-É o Ragnarok. Todos nós devemos lutar até a morte... É o nosso destino.
-Isso é tudo baboseira! Você só é mais um psicopata...!
-Não me importa se acredita ou não, sua vida terminará aqui, pela segunda vez. Considere-se uma pessoa de sorte, pois viveu mais que deveria, já que sua morte era quase inevitável no seu despertar.
Vivi mais que devia? Será mesmo que eu deveria ter morrido naquele acidente?! Mas afinal o que é tudo isso... Tudo parece tão surreal...
-Mas e o Eduardo? Ele também é imortal?!
-Não... Só estava no lugar errado com a pessoa errada.
-Então o deixe ir!
-Assim que isso acabar apagarei a mente dele e das garotas, nunca saberão o que aconteceu.
-Como poderei saber que é verdade?!
-Não é uma opção.
A sensação que sentia, era perturbadora, minhas mãos tremiam, a garganta seca, os olhos ardiam.
Porque tenho a impressão de que tudo que ele disse é verdade? Afinal o que diabos está acontecendo? Devo acreditar? Devo lutar até o fim? Devo desistir? O que devo fazer?!
Talvez minha hora já tenha mesmo passado... Eu não deveria mesmo estar vivo, então pra que por a vida de outra pessoa em perigo?! Não posso fazer isso... Tenho que aceitar os fatos.
Tenho que morrer.
-Me desculpe Eduardo por te meter em algo assim...
Caí de joelhos no chão, desolado:
-Ah... Cara, todo esse tempo que passamos juntos... Foi demais. Todas as nossas discussões, nossas conversas... Nossas aventuras. Tudo que nós fizemos juntos foi uma parada muito massa. Desculpa por ter que me despedir numa situação como essa... Mas espero que seja feliz.
E obrigado por tudo.
Eu não sei se ele ouviu...
Estava muito longe.
Mas ele percebeu minha desistência. Percebeu as lágrimas nos meus olhos, e num ultimo instante quando sorri para ele.
Não o vi mais.
Percebi as garotas correndo... Mas o que...? Procurei rapidamente por ele.
Quando voltei à visão para o cara de terno...
-OH! MERDA!!!
Eduardo estava agora pendurado nas costas do tal imortal, ele havia conseguido fugir das garotas. O homem gritou:
-Vou te matar moleque!
Daí em diante foi tudo como um filme em câmera lenta.
Eduardo acabou me dando exatamente o tempo que eu precisava.
Peguei a espada e corri, com todas as minhas forças.
Fazendo aquilo que meu extinto de sobrevivência exigia de mim!
Cravei a espada na garganta do homem.
Como não era canhoto, faltou força suficiente e a espada ficou engatada na metade do pescoço dele.
Mesmo assim, ele caiu no chão instantaneamente. O sangue espirrou, e pude sentir seu gosto.
Mas eu não parei.
Continuei a rasgar o pescoço, como um açougueiro a degolar um porco.
Algo me dizia que ele não morreria até que eu retirasse totalmente sua cabeça do corpo.
Então fiquei lá, por uns trinta segundos, como um sádico a picotar e recortar aquele pedaço de carne, arrancando artéria por artéria.
Só conseguia enxergar uma grande mancha vermelha e sentir o gosto de sangue.
Algo me dominava, ali não era mais eu.
Toda aquela insanidade, toda aquela vontade de matar.
Era a vontade de sobreviver a qualquer custo.
Era tudo que eu tinha no momento.
Quando voltei a mim...
Vi sangue.
Muito sangue.
Estava em toda parte.
Procurei por Eduardo, ele estava no chão, caído.
Sua garganta estava rasgada.
Corri até ele, tentei senti seu coração... Nada.
Tentei fazer aquela massagem cardíaca... E me amaldiçoei milhares de vezes, lamentando não ter prestado atenção nas aulas de primeiros socorros.
Merda, merda, merda, merda...! As meninas haviam pegado ele.
Não... Mas elas também estavam caídas... Porem intactas. Acho que o corte aconteceu quando ele tentou fugir...
Senti um peso no corpo, um aperto no coração. Não consegui segurar o choro.
-Eduardo... Não... Por favor... Não...
Meu corpo estava fraco demais... Não conseguia me manter acordado.
Os sentidos foram se apagando, a dor era insuportável, como se meus órgãos estivessem sendo esmagados.
Então comecei a passar pelos estados de quase morte.
A agonia. A dor. O pesadelo.
Nesse momento, ainda muito atordoado, pude ver relâmpagos iluminando meu corpo. Uma deliciosa sensação de êxtase me tomava, era como um sonho lindo, com a sensação de que quando eu acordasse tudo voltaria a ser como era antes.
Eu acordei.
Em uma ambulância, com o corpo totalmente intacto.
Dois homens de branco à minha volta.
Estava amarrado à maca.
Algumas horas depois, estava em uma sala, com alguns policiais me enchendo de perguntas. Tentava responder, mas nem para mim, minhas palavras faziam sentido.
Ainda estava totalmente abalado com a morte do meu melhor amigo, e com o fato de que acabara de matar um homem.
De repente, entrou uma mulher na sala, de óculos escuros e muito bem vestida, os policiais saíram, conversaram algo lá fora, e eles me liberaram.
Mas antes a moça abaixou os óculos e me encarou. Não consegui decifrar o que se passava em seus olhos. E naquele momento pouco me importava. Eu havia matado um homem...
Não.
Havia matado dois.
Eduardo estava morto e a culpa é toda minha... Se eu tivesse me entregado antes...
Dois dias depois, estava no enterro de Eduardo.
Nada sobre o incidente saiu nos jornais, nunca mais vi as garotas.
Tinha algo acontecendo... Mas eu estava triste demais pra refletir sobre o assunto...
Na noite passada, havia tentado o suicídio...
Enfiei uma faca de cozinha na garganta.
Mas quando acordei de manhã... Ainda estava vivo e apenas com um leve ferimento no pescoço.
Eu era mesmo imortal.
Maldição! Eu nunca quis isso para mim! Nunca!
Quero ser um garoto normal! Quero meu amigo de volta!
Não consegui ver o momento de cobrir o caixão. Me afastei...
Todas as pessoas me julgavam com os olhos... A mãe dele... Nunca vi tanto desespero em toda minha vida. Aquilo era horrível.
A pior cena que eu já havia testemunhado em toda minha existência... Míseros dezessete anos.
Pior até mesmo do que ao dia do incidente.
Preferia cem vezes mais ter que ver corpos despedaçados do que uma mãe desesperada pelo filho que eu matei.
Me sentei embaixo de uma árvore, longe de tudo e todos.
O cemitério era um lugar tão calmo.
Subitamente senti uma dor de cabeça e então comecei a ter lembranças e sensações que não eram minhas. Algo muito esquisito passava em minha cabeça, não entendi o que estava acontecendo. Eram as lembranças do homem que matei. Consegui saber seu nome, sem ele nunca ter dito.
Alguma coisa estava muito errada comigo...
Por quê? Por que logo comigo?!
Inevitavelmente comecei a pensar em Eduardo, e nossos bons momentos.
Quando me dei conta, meus olhos estavam cheios de lágrimas.
Então disse em voz alta, como se quisesse que ele ouvisse:
-Me perdoa cara... Me perdoa, me perdoa.
Repeti as frases algumas vezes procurando um conforto.
-Eu perdôo sim.
Era voz de Eduardo, ele estava do meu lado. Estava morto. Mas estava do meu lado.


