segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A cura

Não, eu não desisti do blog (ainda).



Nem vou falar muito porque não tenho descu
lpas aceitáveis.

Digo, então, que trago um novo conto, recém saído do forno.

Algo bem mórbido, do jeitinho que gosto.

Aconselho que ao ler, deve se ouvir uma trilha sonora bem "fossa" mesmo, ou algo que transmita uma sensação bem vaga. Isso vai multi
plicar o poder do texto em todos os seus sentidos.



E não se preocupem, pois como diria o exterminador do futuro:

I will be back.










A Cura



Uma moça em pé a beirada de uma ponte.

Com o olhar profundo para quase trinta metros de queda livre à sua frente.

A madrugada está fria, o vento está forte... É perigoso permanecer ali.



-Ei moça... -Um jovem que caminhava por ali. Ela ignora.



-Ei moça. -Ele tentou de novo. Ela continuou em silêncio.



-Ei moça. -O rapaz insistiu... Mas não obteve resposta.



-Ei moça. -A voz dele era calma. A mulher de costas, fingia não ouvi-lo.



-Moça?

-Deixe-me em paz!

-Por quê?

-Por que o quê?

-Por que quer que te deixe em paz?

-Por quê?!

-É. Por quê?

-Não percebes o que vou fazer?

-Acho que sim.

-Então vá embora. Me deixe só.

-Mas esse aí é meu lugar.

-O quê?

-Esse é meu lugar. Tá vendo o lenço enrolado no ferro ali? Meu lenço, logo, meu lugar.

Ela observou o lenço azulado com o desenho de uma flor, inconscientemente tinha parado ali por causa dele... Ficou confusa.

-Esse lenço pode ser de qualquer um.

-Bem... Talvez eu seja qualquer um.

-Pois pegue-o e vá embora.

-Não.

-Por que não?! -Ela estava quase furiosa. O rapaz permanecia inalterável:

-Você está no meu lugar.

-E daí?! O que quer que eu faça?!

-Não ouve o que eu digo? Vou ficar na direção do vento pra ver se nossa comunicação melhora.

O rapaz mudou de posição e repetiu:

-Você está no meu lugar. Ouviu melhor agora?

-Mas que diabos...!

A mulher parecia terrivelmente irritada, mas se conteve, então cuidadosamente, sobre o peitoril da ponte ela caminhou um pouco para o lado e disse:

-Assim está bom?

O jovem sorriu levemente e agradeceu sem parecer se importar como a moça se comportava ou o que ela estava prestes a fazer:

-Muito obrigado.

Então ele subiu no peitoril da ponte.

A moça se assustou e perguntou:

-O que você está fazendo?!

-O mesmo que você, eu suponho.

Então subitamente ela ficou calada.



O vento soprou mais forte.

E o silêncio se tornou um peso.



-Quanto tempo levará depois que estiver lá embaixo?

-Depende muito... Existem pessoas que conseguem aguentar bastante tempo.

-Será doloroso?

-Sentir seus pulmões se encherem de água...? Dizem que é como se eles queimassem.

Ela hesitou por um instante. Ele notou:

-Mas o que é esse mero detalhe em nossas vidas? O que é a dor? Imagino que já nos é comum.

As sobrancelhas da moça se comprimiram em desconfiança. Ele continuou:

-Claro que se chegamos a este ponto, já perdemos tudo aquilo que nos tinha valor. Então a respiração só vai ser mais uma coisa que nos levarão... Assim como a vida.

-Quem é você? A minha consciência?

Ela soltou a frase sem pensar, ele não respondeu, só continuou com aquela sua cara amigável e aquele sorriso vago no rosto de quem timidamente se delicia com um momento.



Então ela resolveu finalmente prestar atenção nele, nos detalhes de sua fisionomia:

Cabelos e olhos negros, bem eram negros na escuridão da noite. Tinha porte físico mediano, sem traços muito marcantes... Podia ser qualquer um. Porém seu rosto era bonito de tal modo que ao olhar em sua direção as coisas pareciam se tornarem mais fáceis, já que ele trazia certa paz.

Talvez fosse pelo sorriso.



-Quer que eu pule primeiro?

Ela engoliu em seco.

Como ele podia estar tão calmo?

Ela refletiu alguns segundos, teve certo receio de perguntar, mas devida toda a situação conseguiu criar coragem para tal pergunta:

-Por que...? Por que está aqui?



Foi como se a pergunta acertasse em cheio aquele sorriso e o partisse ao meio, como uma flecha veloz que corta em duas partes uma maçã. De repente o olhar do homem ficou distante, seus lábios enfim formavam uma linha reta.



Ele recordava.



E quase dava pra perceber tudo se passando em sua mente como um filme na TV.

E então as palavras saíram, tombadas e pouco nítidas:

-Eu as perdi...



A moça compreendeu o cochicho, mais com o poder da sensatez do que do sentido auditivo. Como se soubesse, exatamente como ele se sentia.

Talvez seu caso fosse pior... Porque no final das contas ela era a culpada, somente ela.

Aquela dor no peito ardia como um gancho cravado no coração... E a cada lembrança uma fisgada rasgava ainda mais a ferida aberta. O peso da culpa queima como o frio do mais obscuro inverno.

Mas o fim daquilo estava próximo, finalmente ela teria paz.

Bastava apenas um passo.

E tudo acabaria.



Ela se voltou para o rapaz, e respondeu tímida:

-Podemos fazer... Juntos?

Um sorriso se fez novamente na boca do rapaz, tão confortante e amigável ele respondeu:

-Certo, faremos juntos.

Logo ele caminhou sobre o peitoril em direção a moça, e então deram-se as mãos. Tão timidamente quanto duas crianças ao descobrirem o primeiro amor. O calor do toque naquela noite gelada fez a moça fechar os olhos por um instante e esquecer toda a dor.

Sentiu vontade abraçá-lo, mas o momento não permitia.

E então, quando ela abriu os olhos de novo, e viu o fundo a sua frente. Toda a dor e medo voltaram como um soco no estômago, e sem querer ela acochou o aperto de mãos.

Ao perceber ele disse:

-Agora tudo ficará bem Carla, nós dois nos libertaremos da dor.

De repente seus olhos cresceram em surpresa:

-Como... Como sabe meu nome? Nós nos conhecemos?

Ele continuou calado vislumbrando o vazio da queda.

-Quem é você?

Ele levantou a cabeça, e a encarou, bem fundo nos olhos:

-Eu sou Augusto Nascimento.

“Augusto Nascimento?” Teve certeza que conhecia esse nome, era muito familiar. Mas foi só depois que olhou novamente o lenço esvoaçante que conseguiu entender.

Seus olhos se arregalaram, seu corpo estremeceu.

-Não... Po-pode ser...

Ela gaguejou.

§ § § § § § § § § § § § § § § § § §



Uma moça dirige um carro apressada, está estressada, atrasada para o emprego, tentando resolver alguns problemas do trabalho falando no celular e ao mesmo tempo tentava limpar o excesso da maquiagem com um lenço, usando o espelho interno do carro.

Vira uma esquina bruscamente e nem nota o sinal vermelho.

Ao mesmo tempo, uma mãe atravessa a faixa de pedestre carregando sua filha de pouco mais de dois anos no colo, ela também corre apressada, pois avistou seu ônibus chegando ao fim da rua.



Os corpos se chocam.



E a física segue a risca todas as suas leis. Distorcendo o corpo, mudando a matéria.



O parabrisas vira pó e o carro é banhado numa textura vermelha forte.

O odor é facilmente reconhecível.



Ela sai do carro em choque e foge correndo, acaba esquecendo um lenço azulado com o desenho de uma flor no carro.



§ § § § § § § § § § § § § § § § § §



-Você é o marido dela!



Antes que ela possa esboçar qualquer outra reação ele se joga puxando-a pela mão.



A queda acontece em câmera lenta.



Não há gritos.



Só o fim.



E a paz de uma noite gelada.

4 comentários:

  1. Eu acho que seria melhor se eles não pulassem, e o final fosse mais feliz... Mas tipo... Tua escrita melhorou bastante!

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  2. Gostei muito, até acho que li rápido demais da primeira vez, mas marquei para ler novamente.

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  3. Final feliz Eduardo?
    Esqueceu quem eu sou?!

    Luciano obrigado por ler. :)

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