Mas enfim, pelo menos ainda tou vivo. Não muito criativo, mas ainda vivo.
"Coelhinho da páscoa o que trazes pra mim?"
Hoje trago um 're-make' de um conto que achei perdido no meu guarda-roupa, pelo que me lembre esse daí já deve ter mais de 4 anos, como minha criatividade anda nula o jeito é apelar pra antigas ideias.
Então é isso.
Boa leitura.
Coisas da Vida
Acordei às seis horas, como de costume, naquela segunda-feira nublada. O relógio não despertou por algum motivo, e aquilo me dava um mau pressentimento.
Passei vinte minutos até conseguir me levantar da cama, parecia estar duelando com a preguiça, e ela estava me dando uma surra. Mas conhecia uma arma fatal a este mundano pecado capital: um banho gelado!
Quase que me arrastando, fui até o banheiro, despi-me e senti, na sola do pé, o piso gelado que me fez um calafrio... Toquei a mão na manivela que abre o chuveiro, respirei fundo, pois sabia que a água devia estar estupidamente gelada por causa do clima. E, em um ato de suprema coragem, abri o chuveiro de uma vez, ao máximo, e me endureci esperando a água tocar o meu corpo.
Mas nada se fez... Olhei pro chuveiro, fechei a manivela e a abri de novo. Nada aconteceu...
- Puta que pariu!
Resmunguei dando um soco na parede, o que fez o chuveiro tremer e uma gotícula de água escorrer e pingar em meu ombro. Senti como se aquilo penetrasse na minha pele como fogo de tão gelada. E ainda machuquei a mão...
E só agora lembrei que não tinha pago a conta de água, por falta de dinheiro.
Teria que banhar no quintal, com a água do balde, que deveria estar abaixo de zero graus Celsius. Suspirei, vesti minha cueca e peguei a toalha junto ao sabonete. O xampu tinha acabado na semana passada, e no momento estava sem dinheiro pra comprar outro. Teria que me virar assim mesmo.
O quintal era aberto, sem telhado, alguns baldes de água se empilhavam ao pé de uma parede cheia de limo e lodo (nem sei se são as mesmas coisas...).
Dava até um certo nojo banhar ali: “por que não limpei quando tive tempo?!”.
Pouco depois, já tinha começado a me molhar, e a primeira jorrada de água pareceu corroer minha pele igual a um banho de ácido sulfúrico. Em certo momento, a fim de limpar melhor o pé, decidi colocá-lo sobre o tanque de lavar roupa. Fiquei apoiado em um único pé, enquanto passava a escova no outro. Quando fui trocar os pés, escorreguei no limo maldito e caí de costas!
Sorte a minha não ter batido a cabeça! Fiquei uns trinta segundos ali, caído no chão, a olhar pro céu; eu só pude resmungar, enquanto sentia todo o meu corpo doer:
- O Senhor tá de brincadeira, não é?!
Terminei o meu banho, percebi que tava atrasado e comecei a fazer as coisas às pressas: tomei café frio, comi pão de quatro dias (o bicho tava mais duro do que eu em final de mês) e o gel de cabelo acabara antes da hora e não deu de passar por todo o cabelo. E agora? O que fazer? Lembrei que ainda tinha alguns potes de gel usados guardados, fui até eles, cortei todos ao meio, comecei a pegar aqueles restinhos que sempre sobram no fundo do vidro. Ser pobre é foda!
Peguei minhas coisas e corri para o ponto de ônibus.
Por sorte eu morava só, numa quitinete na periferia da capital. Fora o único lugar que eu consegui arrumar com o dinheiro do estágio de jornalista, no jornal impresso mais mal-sucedido da cidade. O dinheiro que ganhava só dava pra pagar aluguel, luz e água... E quando eu economizava, o que não era o caso. As refeições, eu tinha de fazer na casa dos meus pais.
A única coisa que não achei estranho naquele dia foi o ônibus entupido de pessoas. Sempre peguei ônibus lotado e já era coisa natural ficar espremido durante cinquenta minutos infernais. Cheguei ao jornal e vi apenas o seu Maurício, o segurança, que ainda estava abrindo o portão. Fiquei intrigado, perguntei-lhe as horas e ele me disse que eu estava mais de uma hora adiantado.
-Puta que pariu!²
Isso é que dá! Ter só um relógio em casa e não comprar pilhas pra ele periodicamente. Apressei-me pra nada!
Suspirei... Decidi entrar, sentar e esperar. Passei o tempo todo entediado, a olhar pro nada, e o pior é que eu tentava dormir, mas não conseguia.
O Jack – chamava-o assim porque tinha um cabelinho igual ao samurai do desenho –, meu amigo estagiário, foi um dos primeiros a chegar. Ao me ver, foi logo dizendo:
-Teu cabelo tá mais estranho que o normal.
Sabia exatamente o que ele queria dizer...
Então ali se iniciava as minhas seis horas de serviço escravo. A primeira coisa que aprendi com estágios é que no exército, você descansa mais. Eu já fiz de tudo naquele jornal! Já fiz e levei cafezinho pra todo mundo que trabalha no jornal, já virei manobrista e já até capinei...! Sem falar em todas as outras coisas que não me vêm agora...
Mas lá eu conheci um cara muito gente boa: era o Reginaldo, colunista. O cara escrevia muito bem, costumava me inspirar nele... Sem falar que uma vez ele até publicou um texto meu.
Mas foi nesse dia que eu descobri que jamais devemos confiar demais em um homem. Ele me pediu pra que comprasse seu almoço. Como de costume, fui até o restaurante da esquina e comprei um bandeco. Levei o almoço para o escritório dele. Ele estava só, e, ao entregar, perguntei:
-Mais alguma coisa?
Ele se virou pra mim com um olhar diferente, e, insinuante, ele disse:
-Quero sim... - depois deu uma lambida nos lábios superiores da boca.
(-Puta que pariu!³)
Aquilo me deu um nojo da porra! Depois, ele veio se aproximando e acariciou o meu rosto.
“Caralho! O Reginaldo é veado! Bem que o Jack me falou..."
E sabe qual é a pior?! Eu não podia fazer nada, pois era esse “miserável” quem fazia as recomendações pro chefe, em outras palavras, era ele quem ia me dar o emprego!
Ele se aproximou mais e começou a tocar meu pescoço e desceu a mão para o meu tórax. Cerrei os punhos - eu não aguentei aquilo - e mandei um soco na boca do maldito!
Ele foi empurrado pra trás com a força do golpe. E foi logo colocando a mão no queixo, por causa da dor.
Eu não pude evitar mostrar a minha fúria no rosto. Ele ficou me fitando, com raiva, por alguns instantes.
Fui salvo pelo chefe, que entrou na sala. Ele percebeu o clima estranho, mas não comentou nada... Só me mandou imprimir e jogar fora alguns textos. Rapidamente fui fazer o que ele disse.
“Agora tou fudido! O cara que faz as recomendações é um puta de um boiola! E eu acabei de enfiar a mão na cara dele!”
Encontrei-me com o Jack na sala de impressão e comentei, ainda nervoso, o que tinha acontecido. Então ele me contou que já tinha ido dormir dois finais de semana na casa do Reginaldo. Fiquei mudo.
Ele saiu da sala.
“Definitivamente tou fudido! Apenas eu e o Jack somos estagiários, e,enquanto eu tou batendo no ‘cara das recomendações’, ele ta comendo o rabo do veado todos os finais de semana!”
Aquele era o pior dia da minha vida.
Deu duas da tarde, meu horário de almoço. Essa era a hora em que tudo se acalmava mais pra mim, pois tinha de voltar só as quatro, para arrumar algumas coisas.
Cheguei à casa da minha mãe e não a encontrei. Ela tinha deixado o almoço pronto dentro do forno, mas eu estava sem fome.
Enquanto cutucava a comida com o garfo, refletia sobre tudo que estava acontecendo, “todos esses seis meses de sofrimento pra nada...”.
De repente, o telefone toca e eu atendo. Era a minha namorada. Nosso relacionamento já estava meio abalado e fazia alguns dias que não a via. Ela foi logo despejando, enfurecida:
-Por que você não me liga mais?
-Tô sem tempo. –eu respondo, tentando manter a calma.
-Tá sem tempo?! –ela escandalizou.
Depois, começou a gritar, dizendo que eu não era o mesmo, e aquele papo todo que as mulheres falam antes de dar um “pé na bunda”. E foi justamente o que ela fez: me descartou ali mesmo e ainda disse isso, antes de desligar o telefone:
- Pelo menos o Mário me entende...
“Mário?! Quem diabos era esse filha da puta?!”
Tempos depois descobri que ele era um amigo do trabalho dela. Bem que eu achava estranho quando ela propôs sexo anal de repente... e olha que eu já tinha tentado várias vezes isso com ela no início de nosso relacionamento, mas ela nunca aceitava!
Maldita, perdeu as pregas com o tal Mário! E eu sou porra de um corno.
Voltei para o trabalho, tão feliz quanto cheguei pela manhã; ou seja, pessoas em enterros sentiriam pena de mim.
Todos já se retiravam do local e eu ainda tinha que organizar uns materiais.
Vinte minutos depois, e eu ainda tava longe de terminar... Foi quando ouvi uma voz feminina:
-Onde encontro o Jack?
Era uma moça bonita, cabelos castanhos encaracolados, e um corpo bem desenhado e não pude deixa de perceber, também, a sua feição de tristeza.
-Ele já foi. - eu respondi, evitando olhar pra ela.
Ela ficou parada por uns instantes, olhando para o nada. E, enquanto eu continuava o meu trabalho, pude perceber uma lágrima escorrer pelo rosto da moça.
Naquela situação, fingi não ter visto e estar concentrado no que estava fazendo.
Quando ela deu dois passos para trás, para voltar de onde veio, eu disse:
-Você quer um café ou uma água?
Ela parou. Tinha toda certeza do mundo que ouviria um: “Não, muito obrigada.”.
Mas o que ela disse foi:
-Pode ser...
Ofereci uma cadeira e lhe entreguei o café, e,enquanto eu ainda arrumava as coisas, conversávamos.
-Você percebeu alguma coisa estranha no Jack de uns tempos pra cá?
Ela provavelmente era a namorada do “come-veado”. Eu poderia ter feito a caveira dele, poderia ter dito que todo fim de semana ele deixava de sair com ela pra ir foder com uma bixa! Mas não, apenas disse:
-Não...
-Vocês são amigos, não são?! Ele já me falou de você algumas vezes...
-Espero que nada de ruim.
-Não... Ele apenas tem medo... Diz que você é dez vezes melhor do que ele.
-Isso não é verdade... –eu disse. Fui até sincero, pois já tinha lido alguns textos do Jack e eram excelentes, sem falar na sua gramática, que era perfeita.
Ela ficou em silêncio, e perguntou:
-O Jack anda muito estranho comigo...
“É que ele achou um rabo mais lucrativo!” as palavras palpitavam em minha mente, então comentei tentando amenizar a situação:
-Vai ver é o trabalho...
Ela ficou em silêncio por mais algum tempo, e perguntou:
-Eu posso me desabafar com você?
-Eu prefiro que não. –respondi na hora. Percebi que ela levou um choque.
Ela permaneceu em silêncio. Logo eu havia terminado, me levantei e disse:
-É melhor assim, depois você pode acabar se arrependendo de algo que disser... Espero que você me entenda.
-Estou arrependida agora.
-Me desculpe por ser rude... Não tive um dia legal. Quer sair pra tomar outro café? Acho que agora posso ouvir esse seu desabafo.
-Agora não quero mais.
Olhei pra cara dela. Nos encaramos por cinco segundos. Então eu apenas disse, dando as costas a ela:
-Que pena, eu iria pagar... e olha que não faço isso todo dia!
-Você é irritante, sabia? –ela disse quase brava, e eu respondi à altura:
-As pessoas vivem me dizendo isso... – arrumava minhas coisas para ir embora. Ela continuava sentada.
Já não tinha mais ninguém lá e as luzes estavam quase todas apagadas. Coloquei a mochila nas costas e comentei:
-Vamos, você não pode ficar aqui.
Ela rapidamente se levantou e me acompanhou:
-Como consegue ser tão irritante? Parece que faz o tempo todo, isso!
-Você é o que? Psicóloga?
-Estou no terceiro ano. –ela respondeu, “enchendo a boca”.
Perguntei, curioso:
-O que você aprende nesse curso?
-Posso deduzir suas intenções, agora mesmo.
-Seria interessante. –eu propus, e ela então começou:
-Você ta doidinho pra me levar pra sua casa e transar comigo.
Eu comecei a rir. Ela estranhou e perguntou:
-O que é tão engraçado?
-Ou seu ego é muito grande ou acho que essa não é a sua vocação.
-Ah, é?! E então, no que você tá pensando?
-Ah...Eu? Hoje é sexta, então só quero ir pra casa da minha mãe a tempo de assistir a novela junto com ela e ouvir ela conversar com os personagens mesmo sabendo que eles não estão ouvindo. Depois, assistir o jornal com o meu pai e perguntar sobre tudo o que eu não souber, e ele vai me explicar de um jeito que só ele sabe. Depois vou dormir, para que amanhã consiga sobreviver mais um dia. Mas se achar conveniente o sexo, posso até admitir que estava certa.
Ela finalmente sorriu e disse:
-Eu aceito aquele café.
Poxa, esse é um dos contos mais legais que tu já fez (e eu ainda cheguei a ler o originaaaaal kkkk)
ResponderExcluirTem um toque pessimista no, o que faz ser quase real, muito legal parabens. So uma coisa: Kadê o final da historia do Infinus ?
ResponderExcluirkara, esse menino é muito bom.Nossa, que vida em san!
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