Enfim não vou deixar esse mês passar em branco, ta aí mais um conto.
Nada muito especial, nada muito bom, nada de muito novo... Só o de sempre.
Ah, e o final pode ser meio frustrante... Mas não consegui imaginar nada melhor.
Boa leitura.
Conversando com Lúcifer
Era tarde da noite.
O trabalho lhe obrigava a não ter uma vida social, já que horas extras eram o que lhe mantinham vivo. Precisava aproveitá-las, mesmo que lhe arrancasse toda sanidade, mesmo que lhe arrancasse todos os bons momentos, mesmo que lhe arrancasse todas as vontades e forças.
Era a única forma de sobreviver.
Saiu do prédio, cumprimentou o vigia com um gesto simples e caminhou.
A rua deserta.
A lua grande e cheia.
Os sons de seus passos.
As luzes dos postes.
Sua mente vazia.
O vento soprava.
E por um leve momento ele se deliciou com aquela brisa.
Sentir o ar refrescante, naquela noite abafada, foi quase como se sentir vivo novamente.
'Vida?! Afinal para que viver?
Sofrer e sofrer, para que no futuro seu corpo possa descançar, enquanto espera pelo momento final.
'Tudo parece tão vago e sem propósito'.
Demorou alguns poucos minutos até que seu ônibus surgisse ao fim da rua.
E logo lá estava ele, dentro do veiculo, ocupado por ele e mais quatro pessoas, devido ao horário sem trânsito o ônibus se mantinha veloz. Sentado só, olhava para fora da janela, tentando aproveitar aquele vago momento de descanço... Ainda matinha sua mente leve, sem nenhum pensamento...
Apenas sentia. Unicamente sentia cada sensação que lhe alcançava.
O cabelo sendo bagunçado pelo vento.
O cansaço lhe entorpecendo.
Respirava devagar, como se degustasse de cada molécula de oxigênio absorvida.
E sorria com o canto da boca...
Estava rindo de si mesmo, afinal... Não era um idiota sem senso de humor. E de que adiantaria se enburrar? Uma cara zangada nunca lhe daria um salário maior. Por outro lado se soubesse levar as coisas de forma descontraida, até conseguia fingir gostar do que fazia. E agarrava com todas as forças cada momento que conseguia esboçar um sorriso, e o estendia.
De repente uma moça senta ao seu lado.
O rapaz ficou surpreso, não lembra de tê-la visto ao entrar ou muito menos do ônibus ter parado para um novo passageiro.
Era uma moça bonita, usava um longo vestido negro, como se viésse de uma festa. Tinha os cabelos lisos, negros e um olhar simples, ela puxou assunto:
-A noite está agradável, não acha? -sua voz era leve, como se não arranhasse o ar.
-Sim... Muito agradável.
-Como anda o trabalho, Nelson?
O homem se surpreendeu:
-A gente já se conhece?
-Na verdade nunca fomos apresentados, mas eu conheço você e você me conhece.
-Sério? De onde?
-De sempre Nelson.
-Como...? Não entendi... Como é seu nome? - O homem estava confuso.
-Lúcifer. -a moça respondeu.
Nelson ficou imóvel. E riu.
Mentalmente gritou:
-É um traveco?!
Mas apenas disse:
-Não estou interessado no seu trabalho moço.. Ou moça... Ou sei lá o que...!
A moça explicou como se passando um sermão:
-Eu sou Lúcifer... O diabo! O capeta! Satanás... O cara malzão, que fode com a vida de todo mundo!
Dessas vez Nelson gargalhou, e só depois que conseguiu parar, respirou fundo e disse sentindo dificuldades em se controlar:
-Olha... Seu traveco... Não é querendo zoar não... Mas, eu não tou mesmo afim...
A moça ignorou-o por um momento... Voltou-se jogando o cabelo para o lado e o encarou, seus olhos se encontraram, ela explicou:
-Antes que me questione, ouça.
Aquele olhar fritou a alma de Nelson, foi quase como se ele estivesse hipnotizado, e não conseguia nem mesmo se mover. A moça continuou:
-Sei que você não tem uma vida boa, pois eu nunca lhe permiti isso... Pois EU sou seu chefe explorador, EU sou o câncer de sua mãe, EU sou sua namorada infiél, EU sou a questão que lhe reprovou no vestibular, EU sou o 'não' que levou da garota que é apaixonado, EU sou o ladrão que lhe levou a carteira semana passada, EU sou seu pai alcoolátra, EU sou seu ódio, EU sou o mal... Todo ele.
Nelson ficou imóvel por uma segunda vez. Podia aquilo ser verdade? Impossível! Seu ceticismo não permitia acreditar naquilo! Tudo o que aquela estranha moça disse, mesmo que de um ponto de vista diferente, estava correto.
Nelson voltou sua visão para fora da janela do ônibus, e percebeu ter acabado de passar pela frente do local onde trabalha. Era como se o onibus estivesse andando em círculos.
-Lúcifer...? -Nelson pronunciou a palavra como se aquilo fosse lhe trazer de volta a realidade.
-Sim.
Houve silêncio. Nelson ainda processava devagar tudo na sua cabeça, procurava respostas... Mas não as encontravas. A moça exalava um doce perfume, mas que lá no fim lenbrava enxofre, seu corpo transmitia calor de forma anormal, seus olhar mudara, agora era de uma pessoa vazia:
-Não se preocupe, não vim lhe arrastar para o meu lar. Pelo menos hoje não... Vim conversar.
-Conversar? -uma das sobrancelhas de Nelson levantou em desconfiança.
-Sim... Sabe, vocês me fascinam. Podem ser tão idiotas, tão tolos... E ao mesmo tempo tão esclarecidos.
-E o que isso significa?
-Que vocês, para mim, são como uma fazenda de formigas... Onde eu posso fazer qualquer coisa. Eu decido seu destino. Eu decido como sua vida vai ser.
-Então nos tortura?
-Exato.
-Por quê?
-Porque me delicio ao ver seu Pai sofrer por vocês.
-Então nos tortura apenas para ferir Deus?
-Existem outras coisas, mas eu diria que essa é a melhor parte.
-Mas eu não acredito em Deus.
-Besteira... Você sabe que Ele existe, mas não sabe em que forma. E afinal, eu estou aqui lhe dizendo... Não preciso mentir pra você.
-O que quer de mim?
-Já disse, conversar...
-Por que eu?
-Escolhi aleatoreamente. Nenhum motivo especial.
Nelson, olhou de novo pela janela... Procurando algo que fizesse sentido. A moça pegou em sua mão, suas mãos delicadas e quentes momentaneamente pareceram lhe confortáveis:
-Eu tenho uma proposta. -Nelson já havia deduzido:
-Imaginei que teria.
A moça, esperou um pouco... Como se procurasse palavras:
-O que desejas mais nessa vida?
-Viver.
-De que jeito?
-Feliz.
-O que te torna feliz?
-Eu mesmo.
-Idiota... Vamos, diga o que quer... E eu lhe darei.
-Não quero nada de você.
-É claro que quer... Todos querem... Apenas me diga como.
-Continue invisível a mim e nunca mais me procure.
-Pare com isso... Eu continuarei lhe atormentado. Nunca será feliz.
-Talvez. -Nelson desdenhou, e a moça gritou:
-NUNCA SERÁ FELIZ!
-Deixe-me em paz!
-É isso que quer?
-Sim.
-Maldito! Tornarei sua vida três vezes pior!
-Acha que me importo?
-Eu sei que você me teme.
-Eu ignoro o sofrimento. Eu vivo só. Congelado.
-Eu conheço sua vida!
-Então deveria saber mais que qualquer um, não conseguirá nada de mim desse jeito.
A moça, ficou quieta.
-Diga-me a verdade. Minha alma não lhe serve de nada... Quer dizer... É praticamente como se já à tivesse, não?
-Sim. Mas é como eu disse... Só quero conversar...
Nelson ficou calado. A moça pôs dois dedos perto da sobrancelha esquerda, como se estivesse com enxaqueca, e questionou:
-Por que a teimosia?
-Eu sou feliz do jeito que sou.
A moça gargalhou, mas sem a delicadeza de uma donzela, e sim como um macho que arregaça as pernas, põe os braços para trás do banco, e confortavelmente mostra os dentes.
-Não me fale besteira...! Você é feliz? Com uma vidinha de merda dessas?
As palavras da moça pesaram em sua cabeça... Lúcifer continuou:
-Me diga onde está a felicidade em trabalhar até suas pálpebras pesarem, sua mente enfraquecer e seu corpo tombar de tanto cansaço?! -Lúcifer gesticulava brava.
-Quer saber quando vai conseguir um aumento? Um enprego melhor? Só quando aquele seu chefe ordinário morrer, e acredite, aquele homem tem uma saúde de ferro!
E depois ainda vai chegar em casa e ter de encontrar uma mãe doente, em que só vive por se preocupar com o filho! Quantas vezes você já pensou em ter que se libertar dela? Quantas vezes não desejou a velha morta? E sem falar naquela putinha que você chama de namorada... Sabe quem no raio de dois quilômetros da sua casa ainda não fodeu com aquela piranha? Quer saber pra quem ela ta dando nesse exato momento? Pro filho do seu vizinho, e o moleque mal tem quinze anos! E tá fazendo a vaquinha berrar feito um porca parindo!
E você vem me falar em felicidade?
Vamos! Me diga! Onde está a felicidade nisso? Onde?!
Nelson sentiu uma lágrima escorrer dos seus olhos, gelada, ela escorreu pela sua bochecha até chegar no queixo, e suavemente pingou em sua mão fechada sobre os joelhos... Ele sabia que tudo era verdade. Tudo.
Olhou de novo pela janela, era a terceira ou quarta vez que passavam pelo mesmo lugar.
Fechou os olhos, e sentiu outra lágrima escorrer.
Cochichou:
-Eu sou feliz...
A moça fitou-o, esperando dizer algo mais:
-Eu sou feliz...
Dessa vez disse em um tom mais alto.
-Eu sou feliz.
Aos poucos ia criando convicção no que dizia.
-Eu sou feliz!
Lúcifer, apenas ria com o canto da boca, e com os olhos lançavá-lhe um olhar de reprovação. E desafiou desdenhando o pobre rapaz:
-Me prove.
Nelson usou a costa da mão para limpar os olhos. A moça de vestido negro, insistiu:
-Me diga o que te torna feliz!
-O que me torna feliz?
-Sim!
-São os detalhes... Cada um deles.
Lúcifer franziu a testa em desconfinaça. Nelson levantou a cabeça e repondeu:
-Quando acordo, sempre sinto o cheiro do café estupidamente doce que minha mãe prepara com toda satisfação, para mim. E como eu adoro aquele café!
E enquanto tomo café, por alguns leves instantes ela afaga meus cabelos, e reclama como as noites passadas tem sido quentes ou frias demais... Aí quando saio pela porta, noto aquele olhar, o melhor olhar de todos: O de amor sincero e puro.
Aí eu atravesso a rua, chego até a casa da Tânia, minha namorada e levo a Su, filhinha dela, para a escola... E é um dos momentos mais prazerosos do meu dia, ouvir aquela menina de 4 anos cantarolar com sua voz fina, quando não, a me questionar sobre os misterios e os porquês dos Power Rangers ou Bob Esponja... E sempre me dar um tímido beijo no rosto, quando temos que nos despedir.
Em seguida eu pego o ônibus lotado, sufocante, mas sempre passo a maior parte do engarrafamento sobre a ponte, e a vista do rio a está hora da manhã é sempre maravilhosa.
E quando chego no trabalho encontro o Zé, o porteiro, que me cumprimenta com aquele vozeirão dele: 'Aí, o futuro dono desta enpresa...'
Então, daí em diante, passo minhas horas de tormento, mas sempre aliviadas pelo poder de amigos que arrancam minha tranquilidade comentando sobre o que passou na tv na noite passada, ou comentando sobre as mais belas mulheres da enpresa, ou criticando os times dos outros... E quando o senhor Marinaldo vem reclamar, é só fingir que ele é meu pai... E de como sempre fui muito hábil em ignorá-lo.
E na hora do almoço, eu subo as escadarias do prédio... E lá, passo duas horas devorando livros, e consigo sentir as emoções de cada personagem, e imaginar a personalidade de cada autor.
E as vezes, no fim do expediente me encontro com a Cristina... Minha amiga de infância, bem humorada é capaz de acabar com mal humor de qualquer um!
Quando chego em casa... Acabado, e deito na minha cama, a única coisa em que penso é em acordar no outro dia e fazer tudo de novo!
De repente um silêncio absoluto.
Lúcifer se levantou... Olhou para Nelson, dessa vez com um sorriso no rosto:
-É garoto... Você sabe o que quer. Então te vejo um dia desses.
E como se o vestido negro fosse apenas uma toalha enrolada no corpo, ela arrancou rapidamente e a jogou sobre Nelson, deixando-o cego... Ele tentou remover a roupa, mas era como se ela lhe sufocasse! Lhe cobria todo o corpo como um ser vivo e cada vez apertava mais e mais! Nelson se debatia tentando se desprender daquela escuridão. A roupa estava lhe sufocando.
-Ei rapaz! Ei rapaz!
Nelson abriu os olhos apavorado, alguém o acordou.
Era o motorista do ônibus.
-Onde estou?
-No ponto final...
-Ah, droga... -Nelson percebeu que havia passado de sua parada, e que tudo o que aconteceu foi apenas um maldito sonho.
Dali até sua casa eram uns sete quilometros, e a esta hora da madrugada era um pedido de suicídio... Mas o que poderia fazer? A vida lhe ferrou mais uma vez...
E a única coisa que disse antes de sair andando foi:
-Quem sabe se talvez eu tivesse dito sim aquela moça, as coisas mudassem um pouco...
--fim--
Eu esperava um final diferente. Mais o enrredo foi muito bom.
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